Habemus Papam

Confesso que não fiquei satisfeito ou me contentei em tratar do assunto do momento-novo Papa, apenas em um artigo como o fiz na segunda anterior. Verdadeiramente a semana que passou foi toda dominada pela reunião do Colégio Cardinalício para escolha do novo Papa.

Ocorre, que em meio a milhões de opiniões e apostas entre tentativas e erros, aliás, 99,9% de erros, finalmente um nome foi escolhido.

Nem italiano, nem latino, nem asiático tampouco negro ou de olhinhos puxados.

O eleito foi um americano de carteirinha cravando o primeiro Papa norte americano.

Em meio a uma explosão de análises e opiniões de vaticanistas, jornalistas, teólogos e profetas do caos, o nome de Robert Francis Prevost Martinez foi solenemente anunciado.

Travei algumas discussões sobre a personalidade, a formação e sobretudo o viés ideológico de Leão XIV, entretanto, recebi um baita texto que faço questão de reproduzir, e com o qual concordo ainda que em parte:

“Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. Mas, às vezes, Ele também escreve por mensagens de WhatsApp. Foi numa dessas trocas com minha querida amiga Bruna Torlay-dona de uma inteligência colossal e de uma cultura que faria inveja a bibliotecas inteiras — que surgiu a faísca para este texto.

Falávamos, entre outros assuntos, sobre o novo papa, claro. Bruna, com sua fé admirável (e que já fez muito ateu engolir argumentos com água benta), comentou que via uma intervenção divina nessa escolha. E, se ela acredita, quem sou eu para duvidar?

Pois bem, o mundo testemunha um novo sopro de esperança vindo do trono de Pedro. A fumaça branca se ergueu sobre os céus de Roma e com ela o nome escolhido ecoou pelas colunatas de Bernini: Leão XIV.

E como aprendi com a Bruna, não é um nome qualquer. É uma evocação de força, diálogo e coragem. Um nome que carrega séculos de peso simbólico e expectativas históricas. Um nome que, para os que conhecem os caminhos tortuosos (e, às vezes, mirabolantes) da Igreja, aponta para um futuro de conciliação, firmeza moral e aproximação entre fé e humanidade.

Tudo começou com Leão Magno, o primeiro da dinastia dos rugidores. Santo, Doutor da Igreja, gigante espiritual e político. Foi ele quem, no século V, caminhou ao encontro de Átila, o “Flagelo de Deus”, munido apenas de palavras e fé. Sem exército, sem espada, sem nem um spray de pimenta e, ainda assim, convenceu o Huno a dar meia-volta. Salvou Roma com um sermão. Átila, que não temia ninguém, percebeu que discutir com um Doutor da Igreja era pior que enfrentar o juízo final sem advogado.

Séculos depois apareceu Leão XIII, outro figurão no hall da fama dos papas. Ganhou o apelido de “Papa da Encíclica”, pois foi quem lançou a famosa “Rerum Novarum”, um documento que virou a pedra fundamental da doutrina social da Igreja. Em bom português? Um “manual cristão do trabalhador”, misturando fé com justiça social — ou seja, um guia para lembrar que explorar o próximo não está nem um pouco em comunhão com o alto.

Leão XIII foi um mestre em equilibrar tradição e modernidade, algo como esquentar lasanha no micro-ondas e ainda fazer parecer que saiu direto do forno da nonna. Ou seja, conseguiu manter o sabor da velha guarda sem deixar de servir algo novo à mesa da história.

Para o Brasil, Leão XIII teve ainda um gesto de pura nobreza presenteando a princesa Isabel com a Rosa de Ouro, uma condecoração dada a mulheres católicas por serviços excepcionais à Igreja ou à humanidade. Em outras palavras, uma espécie de “Oscar do Vaticano”, só que sem tapete vermelho e com muito mais simbologia. O motivo? Reconhecer que libertar os escravos era não só um ato grandioso, mas também profundamente cristão e não apenas um bom tema para cair na prova de história.

Agora, com Leão XIV, renasce a expectativa de que esse mesmo espírito de conciliação, coragem e compaixão floresça em tempos atribulados. O mundo, que mais parece uma timeline em colapso, clama por um leão que ruge pela paz. E sim, a escolha do nome não é aleatória. Pode ter sido um sinal. Um rugido. Um recado direto do Espírito Santo, talvez com legenda em latim.

Espera-se de Leão XIV um líder espiritual que abrace o diálogo entre religiões, entre ciência e fé, entre tradição e progresso. Um papa que compreenda o sofrimento humano e que, como Leão Magno, não tema os bárbaros da modernidade – sejam eles o ódio, a desigualdade ou a indiferença — mas os enfrente com a força do espírito. Um pontífice que, como Leão XIII, saiba reconhecer a justiça, a liberdade e os gestos de redenção, mesmo que eles não venham acompanhados por hinos gregorianos.

A história nos ensinou que um “Leão” no Vaticano não é símbolo de poder bruto, mas de sabedoria corajosa. Eis que surge Leão XIV, o primeiro papa norte-americano como um novo capítulo dessa linhagem. E o mundo, exausto de ruídos e vazio de sentido, não espera mais milagres, espera humanidade. Que ele traga não apenas respostas, mas presença. Não apenas discursos, mas escuta. E, sobretudo, que reacenda a centelha da esperança num tempo em que até a fé parece procurar por fé.

Habemus Papam. Que ele nos ajude a lembrar que ainda podemos ser gente.”

Té logo!

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