Andava certíssimo o mestre Humberto de Campos ao afirmar que os festejos joaninos no Brasil sempre tiveram marcas excepcionais. No artigo “Meu boi morreu”, inserida na coleção das suas “Últimas Crônicas”, o inolvidável escritor cuidou dos visitantes que iam à capital da República como romeiros da “Saudade e da Tradição”, relembrando que na Roma Antiga os escravizados de guerra, mesmo no cativeiro, conservavam a religião e os costumes como os folguedos folclóricos de suas próprias culturas.
Pelo Brasil do Norte, no período do São João, o autor recupera o fato de que não havia como faltar o bumbá meu-boi ou o boi bumbá, “a parte mais pitoresca da comemoração religiosa”, isso porque tudo era de influência da religião.
Foi o que se deu com a nossa Parintins, que se revelou o reduto nortista e nacional do boi-bumbá de um estilo grandiloquente, tendo começado a brincadeira como outras de igual fundamento e essência: espelhinhos que faiscavam dos chapéus, burrinhos que galopavam, boi de dorso de pano preto ou branco salpicado de papel dourado e prateado, chifre largo enfeitado de fitas, dançando, gingando, dando voltas e reviravoltas e saindo pelas ruas em cortejo.
Foi assim que se deu com a nossa Parintins, com adversários e partidários de cada um dos bois soltando bombas de busca-pé e fogos de artifício pelas ruas estreitas de uma cidade pacata, alegre e feliz, em que a brincadeira fechava o cerco, ocupava o quarteirão e todo o povo ia para a janela e o portão das casas viver aquela emoção, fosse a hora que fosse, quase como uma religião.
Não bastou! Parintins, graças à genialidade de seu povo criativo e audacioso, preferiu deixar fluir o sonho e a magia para muito mais longe, transformando a festa do pequeno terreiro, em meio à quermesse da santa padroeira, em um grande festival, e segue criando e recriando o que há de mais expressivo no folclore nacional: os espetáculos dos bois Caprichoso e Garantido.
Sem ter perdido a essência mais antiga da brincadeira pela presença de algumas figuras mais tradicionais e sua musicalidade de toadas, o que os bois de Parintins mostram na arena é muito mais que o folclore tradicional sem nunca deixar o boi ficar encurralado, como sucede na descrição de Humberto de Campos, e sem precisar dar chifradas para se livrar do cerco do povo, pois, ao contrário, eles é que chamam o povo do mundo todo para participar da brincadeira, se deixar encantar e permitir que o boi o escolha, e a cada ano muito mais gente invade a ilha do rio Amazonas para ver o boi se apresentar. E dança com o boi, canta com o boi, festeja com o boi de sua estimação e se faz parintinense de coração.
Foi uma transformação crescente desde o curral para o tablado, do estádio para o bumbódromo, para a invenção dos patrocínios privados, a venda de ingressos, a profissionalização dos serviços, a transmissão nacional pela televisão, a ampliação do bumbódromo e a criação do Liceu que é a escola de artes – pública, gratuita e permanente. Assim a ilha se tornou o recanto da magia e do encanto do folclore nacional.
O que se deu é que a festa do boi-bumbá de Parintins se tornou colossal sem perder a tradição. E o boi não morrerá jamais.
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