Falta de investimento em inteligência e crise econômica provocaram o crescimento das facções criminosas no Amazonas

As facções criminosas estabeleceram-se e cresceram exponencialmente no Amazonas nos últimos oito anos. Dois fatores estão na raiz desse fenômeno: a falta de investimento em inteligência policial e a crise econômica.

Até 2010 o país vivia um ciclo virtuoso na economia e o delegado federal Sá Cavalcante comandava um sistema, conhecido como Infopol, que mapeava o crime no Estado e orientava não apenas as ações policiais, mas principalmente os investimentos em educação e na área social.

Cavalcante foi secretário de Segurança no Amazonas e em Roraima. Era um policial discreto, mas extremamente eficiente no que diz respeito à organização do combate ao crime. Tinha carta branca do então governador Eduardo Braga (MDB) para mapear e combater o crime organizado. Por isso, manteve a situação sob controle durante toda a sua gestão.

A partir da ascensão do governador Omar Aziz (PSD) ao poder, em 2010, o foco da segurança mudou, saindo do investimento em inteligência para as ações de marketing, cuja face mais visível era o programa Ronda nos Bairros. A população aprovou a medida, porque tinha um contato mais aproximado com a Polícia Militar. A Polícia Civil, entretanto, ficou relegada ao segundo plano e os investimentos em inteligência foram reduzidos drasticamente.

Foi nesta época que facções criminosas nacionais, como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, começaram a espalhar suas atuações com mais força por outros Estados e elegeram o Amazonas como base prioritária, por causa da proximidade com os maiores centros fornecedores de drogas – a Colômbia e o Peru, principalmente.

Mais ou menos ao mesmo tempo um grupo de traficantes instalados basicamente no bairro da Compensa, em Manaus, percebeu o movimento das facções nacionais e decidiu atuar de forma semelhante, mas independente. Comandados por José Roberto Fernandes, o Zè Roberto, eles criaram a Família do Norte.

O primeiro sinal da influência das facções no crime organizado do Estado ocorreu em 2013, quando 172 presos fugiram do Instituto Penal Antonio Trindade, em Manaus, no maior acontecimento de todos os tempos deste tipo no Estado. Ainda assim, a inteligência não foi capaz de perceber como os grupos organizados estavam crescendo.

No ano seguinte, a crise econômica se instalou e um outro episódio mostrou que as facções já estavam consolidadas: um escândalo nacional foi revelado quando vazou uma gravação em que o então subsecretário de Justiça do Amazonas, major PM Carliomar Barros Brandão, negociava apoio da Família do Norte à reeleição do então governador José Melo (PROS), que mais tarde seria cassado por compra de votos e depois preso por corrupção.

Na época, o senador Eduardo Braga chegou a desabafar, dizendo que estava concorrendo com um esquema criminoso, que ele não conseguia conter.

Pouco depois disso, a FDN aliou-se à facção carioca Comando Vermelho, para combater os paulistas do PCC. A rivalidade ficou evidente em janeiro de 2017, quando integrantes do grupo amazonense trucidaram os inimigos, na rebelião que ficou conhecida como “Massacre do Compaj”, com grande repercussão nacional.

Hoje, são três os grupos que disputam a hegemonia do crime organizado no Amazonas: FDN, CV (agora independente) e PCC. Isso explica a intensa guerra travada nas ruas, com mortes registradas em várias zonas da capital e em alguns municípios do interior todos os dias. Há quem garanta que, como consequência da crise econômica e da falta de investimento em inteligência, o tráfico passou a ser o maior empregador de Manaus, superando o Distrito Industrial.

Este ano o governador Amazonino Mendes (PDT) decidiu apelar para uma consultoria internacional, capitaneada pelo ex-prefeito de Nova Iorque, Rudolph Giuliani. Este, quando administrava a maior metrópole americana, encontrou uma situação muito parecida, em que gangues dominavam bairros inteiros. O programa “Tolerância Zero”, que se tornou um case de sucesso em todo o mundo, acabou com o problema e transformou a cidade numa das mais seguras do planeta.

A ideia é recuperar o tempo perdido e instalar no Amazonas um sistema capaz de monitorar, combater e reduzir a influência das facções criminosas na sociedade.

Não será fácil.

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