Doenças transmitidas por mosquitos e outros vetores permanecem entre os principais desafios da saúde pública no Brasil. Além da necessidade permanente de combater enfermidades como malária, dengue, chikungunya, zika e febre amarela, especialistas acompanham com atenção os impactos do El Niño sobre as condições ambientais relacionadas à transmissão dessas doenças em diferentes regiões do país.
Análises da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que mudanças na temperatura, nas chuvas e na umidade podem alterar os ambientes de reprodução e atividade dos mosquitos, influenciando a disseminação de algumas dessas enfermidades. O impacto, entretanto, varia conforme o território, a época do ano e a intensidade do fenômeno.
“Na Amazônia, o El Niño costuma intensificar a seca e a vazante dos rios, ampliando os criadouros do mosquito Anopheles, transmissor da malária, nas margens e lagoas, justamente no período de pico da doença na região, entre julho e outubro. Já a escassez de água leva ao armazenamento em recipientes improvisados, o que favorece a proliferação do Aedes aegypti, transmissor da dengue. Em outras regiões, os impactos variam conforme as características climáticas locais. Por isso, as ações de vigilância e prevenção devem considerar as particularidades de cada território”, orienta o infectologista e consultor médico do Sabin Diagnóstico e Saúde, Marcelo Cordeiro.
Conforme o Ministério da Saúde, mais de 99% dos casos autóctones de malária registrados no Brasil ocorrem na região amazônica, onde a doença permanece endêmica e demanda ações contínuas de vigilância, diagnóstico e tratamento. No Amazonas, foram registrados 24.437 novos casos de malária em 2026, redução de 25% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram contabilizados 32.590 casos, conforme dados da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-RCP). Já arboviroses como dengue, chikungunya, zika e febre amarela seguem exigindo atenção em diferentes áreas do país. A dengue, por exemplo, registrou 425 mil casos prováveis entre 1º de janeiro e 1º de agosto de 2026 (até a 30ª semana epidemiológica), redução de aproximadamente 71% em relação ao mesmo período do ano anterior. Ainda assim, como o El Niño se estabeleceu entre maio e junho, a previsão é que seus efeitos se estendam até 2027.
Prevenção e cuidado
As medidas preventivas continuam sendo a estratégia mais eficaz para reduzir o impacto dessas doenças, especialmente em períodos em que as condições climáticas favorecem a proliferação dos vetores. Entre as recomendações estão manter a vacinação atualizada contra as enfermidades que já contam com esse recurso e adotar medidas para evitar a picada dos mosquitos.
“O ideal é não esperar uma epidemia ou uma viagem para verificar a situação vacinal. Sempre que um imunizante estiver recomendado para a idade, a condição de saúde ou o local onde a pessoa vive ou pretende visitar, ele deve ser aplicado no momento indicado”, afirma Cordeiro.
Atualmente, a vacinação é uma das principais ferramentas de proteção contra a febre amarela e a dengue. No caso da febre amarela, o esquema vacinal varia conforme a idade e o histórico do paciente, sendo essencial conferir a caderneta e seguir as recomendações médicas.
“O imunizante contra a febre amarela oferece proteção duradoura para a maioria das pessoas, mas é importante manter o calendário vacinal atualizado, especialmente no caso das crianças”, explica o médico.
Já a vacina contra a dengue possui indicações específicas, que variam conforme a idade, o tipo de imunizante disponível e a avaliação clínica. “A indicação depende da idade, das condições de saúde e das recomendações vigentes. Por isso, é fundamental procurar orientação médica ou de um serviço de vacinação antes de receber o imunizante”, esclarece Marcelo Cordeiro.
O Brasil já possui uma vacina aprovada contra a chikungunya para públicos específicos, embora sua oferta ainda seja limitada. Para doenças como zika, transmitida pelo Aedes aegypti, e para a malária, cujo vetor é o Anopheles, a principal forma de prevenção continua sendo evitar a picada.
Na prática, isso inclui eliminar recipientes que acumulem água parada – para reduzir a proliferação do Aedes aegypti -, utilizar repelentes, vestir roupas que cubram braços e pernas em áreas de maior risco, instalar telas em portas e janelas e usar mosquiteiros, especialmente em regiões endêmicas para malária.
Embora muitas dessas doenças apresentem sintomas semelhantes, como febre, dores no corpo, dor de cabeça e mal-estar, elas exigem abordagens diferentes. Por isso, diante dos primeiros sinais, a orientação é procurar atendimento médico e evitar a automedicação.
“O diagnóstico precoce permite iniciar o tratamento adequado, reduzir complicações e contribuir para o monitoramento epidemiológico. Como várias dessas doenças apresentam manifestações parecidas, a avaliação clínica e, quando necessário, os exames laboratoriais são fundamentais”, afirma o especialista.
Atendimento às crianças e adolescentes
Ainda de acordo com o defensor público, a situação preocupa especialmente quando envolve crianças e adolescentes, que têm prioridade absoluta no acesso às políticas públicas de saúde.
Por isso, a Defensoria solicitou à Secretaria de Estado de Saúde (SES) dados sobre o número de pacientes pediátricos que aguardam atendimento fora do Estado, o tempo de espera, a classificação de risco e as providências adotadas para viabilizar o Tratamento Fora de Domicílio (TFD), além das medidas de contingência para casos urgentes.
“A portaria dedica uma seção inteira apenas para esse grupo vulnerável, porque a demora no atendimento e na realização de procedimentos pode comprometer o desenvolvimento visual dessas pessoas logo no início da vida e provocar a perda permanente da visão”, destacou.
Encaminhamentos da Defensoria
A Defensoria também pediu à SES informações sobre a estrutura e a capacidade da rede oftalmológica, incluindo unidades e prestadores, número de profissionais, equipamentos, oferta de consultas, exames e cirurgias, além de dados de produção dos últimos 24 meses. Com isso, a instituição quer verificar contratos, metas e medidas adotadas para garantir a continuidade do atendimento após o descredenciamento ou a suspensão de serviços.
Ao Complexo Regulador, a Defensoria pediu dados atualizados sobre as filas de oftalmologia, incluindo número de pacientes, tempo de espera, classificação de risco e demandas urgentes ou emergenciais pendentes.
O defensor explica que o Procedimento Coletivo está em fase de investigação e, a partir das informações coletadas com a SES-AM, será possível adotar outras medidas.
“Faremos um diagnóstico da rede com as informações coletadas e poderemos adotar medidas coletivas típicas da Defensoria, como recomendação administrativa a gestores e tratativas para regularização das falhas, por exemplo”, concluiu.
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