Criminalização da pobreza e volta às aulas: quando práticas policialescas adentram a escola pública

Por Ceane Simões

O Ano é 2022. Volta às aulas! Ansiedade de mãe que aguardou desde 2020 pelo retorno escolar naquela comunidade rural de Manaus, no bairro do Tarumã (ou seria melhor chamar rurbana?). Primeira reunião de “pais e mestres”. Todos os profissionais da escola foram apresentados individualmente.

A dirigente da reunião, antes de chamá-los para tal, falava das normas da escola para uma plateia sentada nas novíssimas cadeiras escolares – no recinto que servirá de refeitório. Todas as pessoas atentas! Algumas mães levaram suas crianças pequenas. A mensagem vocalizada para a plateia era básica e reiteradamente repetida: “Na escola, não pode isso…!”; “Na escola, não pode aquilo!…”.

Como o retorno às aulas presenciais (ainda em meio pandêmico) coincidiu com a inauguração da reforma e ampliação dessa escola. Por isso, imaginei um tour pelos novos espaços e o gozo das pequenas alegrias de um ambiente todo renovado, afinal criar afinidade com esse lugar novo é um jeito de aprender a gostar e cuidar, sentir algum pertencimento, imagino.

Porém, ainda não! Vamos ouvir o que cada profissional da escola tem a dizer, são também informações relevantes, mas ditas de um modo já conhecido, em uma estrutura vertical de relações já institucionalizada, nos mesmos lugares de hierarquia. Até esse ponto, tudo na mais tranquila “normalidade”. Mas, eis que se movimenta no fundo da sala, e é chamado para ter uma fala, um policial militar fardado. Era de alta patente. Coronel fulano de tal!

No momento em que começou a discursar, foi simpático, sorridente, descontraído. Ofereceu uma “boa tarde!” enérgica e pediu para que todas as pessoas se levantassem das cadeiras para deixar circular melhor o sangue e ficarem mais “relaxadas”. Agora, sentem que lá vem a história!

O coronel começa a sua fala de “orientação”, segundo ele, remetendo as suas palavras para uma audiência hipotética. A hipótese seria de que ali não estavam presentes pais e mães relapsos, que não acompanham a vida dos filhos. A exemplo de “mães que dormem após o almoço e acordam só às 17 horas”, que não dão a atenção aos filhos. Não! Ali estavam reunidas pessoas que querem o bem dos seus filhos, pais e mães que abraçam os seus filhos. (É curioso que aqui já se percebe uma manobra de negar pressupor algo, mas já pressupondo; acusar sem acusar).

Por isso, ele valoriza e recomenda que essas mães (a maioria da plateia era feminina) continuem a abraçar os seus filhos (opa, bacana, vai falar de afeto!) e, então, passa a tratar de uma maneira específica de abraço. Para isso, chama dois alunos presentes, um menino e uma menina para iniciar a demonstração. Pede que cada um a seu tempo o abrace.

Diante do constrangimento da menina em abraçar um estranho em público (pediu para ser abraçado “direito” por ela), ele segue a demonstração e simula como cheirar a roupa e os cabelos dos dois “voluntários”. E assevera dessa maneira: deve-se abraçar os filhos todos os dias antes de sair de casa e ao retornar da escola!

Depois ensinou outra técnica, pedindo para que todos levantassem uma mão. Disse que isso poderia ser pedido aos filhos para averiguarem se nos dedos não haveria alguma marca. Se a mensagem até ali não estava compreendida, ele tratou de dizer, em seguida, com todas as letras: é para saber se usam maconha.

As “técnicas” ensinadas de maneira descontraída, não conseguem disfarçar a lógica de criminalização da pobreza presente na situação. Segundo essa lógica, comunidades pobres são todas suscetíveis ao “crime”. Os pais e mães, potencialmente relapsos, precisam ser alertados e ensinados a evitar que os seus filhos não se desviem do caminho.

Daí a necessidade da vigilância constante. Daí a necessidade de tornar a prática policialesca pedagogicamente palatável, necessária e inquestionável numa escola pública de bairro. Afinal, segundo esse modo de pensar, todo/toda adolescente periférico é um potencial usuário de drogas ou traficante e deve ser tratado com suspeição. Pois, todos querem “combater o mal”. Aliás, qual o problema de “protegê-los”?

Esse é o imaginário que se quer normalizar no espaço da escola, nos espaços comunitários. Não é a compreensão crítica do contexto social e das injustiças e suas causas o que importa, mas uma simplificação da realidade e a busca individual de culpados.

Não é a educação, mas a punição que importa. A criminalização da pobreza e da juventude periférica é tão flagrante que basta imaginar se essa mesma demonstração seria feita para uma plateia de mães e pais de uma “escola de elite” em Manaus. Não seria!

Seguindo a reunião…

Indaguei a duas funcionárias da Semed presentes sobre o porquê daquelas falas. Se elas não percebiam algo de estranho num policial militar dentro de uma escola e todo aquele discurso? Sem jeito, disseram que era melhor falar com a diretora. Para a diretora, repeti os mesmos questionamentos. Ela respondeu que não via nenhum problema na situação e que o coronel, era seu convidado e, se eu quisesse, poderia abordá-lo lá fora (dentro da escola, não!).

Rapidamente, ali se firmaram várias imposturas. Senti que como mãe que questiona eu não era bem-vinda. Minhas palavras não poderiam ser acolhidas naquele espaço. Que a minha voz e incômodo só poderiam ser expressos “lá fora”. Que ali havia um homem convidado, mas eu, como mãe de aluno, não! Eu não poderia falar e sequer indagar o que ali se passava. Um desconforto, uma sensação estranha me atravessou nessa breve cena cheia de microviolências. Eu não estava ali para estragar a festa, estava expressando o meu incômodo, tão simplesmente.

A violência simbólica e as relações de opressão pesaram como um fardo. De repente eu me deparei com os elementos de um espaço hostil e autoritário, componentes presentes na nossa sociedade fascistizada, em que a disposição para o diálogo e acolhimento da diferença são inválidos, onde imperam a lógica do poder e das hierarquias e não as relações igualitárias. Onde a voz de uma mãe é inoportuna.

Fui dormir amuada, triste e tomada de raiva e desesperança. Mas entendi que denunciar francamente é esperançar, trazer questões para a cena pública, não escamotear, nem criar subterfúgios. É chamar para o debate. Não se trata de buscar concordâncias, meias-palavras, apaziguamento. É pôr ideias em movimento, anunciar. É buscar uma perspectiva mais responsiva diante dos fatos incômodos.

O diálogo franco, a atenção e o respeito mútuo não deveriam ser substituídos por práticas policialescas. As práticas policialescas não são pedagógicas e, pela lógica punitivista e criminalizante que carregam embutidas, não deveriam adentrar no espaço da escola. Aproveitando este momento tão importante e esperado de volta às aulas, é preciso, mais do que nunca, consagrar a escola como lugar de reflexão crítica e acolhimento.

*Mãe, professora da Universidade do Estado do Amazonas e membra do Coletivo Escola Família Amazonas, movimento por educação integral e democrática.

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