Na santa inocência infantil, nem existe espaço para uma distinção clara entre o bem e o mal.
As mentes e os corações infantis sempre se ocupam da beleza e da delicadeza de viver a vida de um modo saudável e edificante.
Assim era a caminhada pueril e absolutamente feliz de Bito e Maú até que, na preparação catequética para a primeira eucaristia, foram confrontados com os temas relacionados ao que agrada ou desagrada o coração de Deus e que pode levar uma pessoa para o céu ou para o inferno.
Pra completar esse cenário, numa das santas missas que os dois priminhos assistiram junto com seus pais, o padre, durante a homilia, tocou no tema céu e inferno.
Aquilo intrigou os dois pirralhos a ponto de desejarem ardentemente que um dia, estando na casa do vovô Onaldo e da vovó Enáni, aproveitassem a oportunidade para tirar suas dívidas.
Chegado então um desses dias, Bito e Mau, como de costume, foram passar um fim de semana na casa dos avós e não tardaram em despejar sobre eles uma saraivada de perguntas sobre o céu e inferno.
Lógico que os avós de Bito e Maú, apesar da enorme boa vontade em querer ajudar os netinhos, de longe, se atreveram a responder aos questionamentos preferindo deixar a tarefa para D. Clarice, a veneranda e preparada catequista da igreja que frequentavam.
Combinaram então os vovós de fazerem uma lanche da tarde para amadureceram a ideia e convidaram D. Clarice e com isso, recorrerem aos seus conhecimentos a fim de ensinar os pequenos sobre um tema tão espinhoso.
Vovó Enáni e vovô Onaldo providenciaram então alguns petiscos entre pães de queijo, um bolo de chocolate, sanduíches de tucumã e queijo coalho, tapiocas, bolinhos de chuva, sucos e um gostoso e quente café com leite.
Assim, reunidos na bela e ampla varanda da casa, sentaram-se em volta da grande mesa e puseram-se a trocar ideias.
-Crianças, quando o padre falou sobre céu e inferno, o que que vocês ficaram com dúvidas ou receios? Indagou D. Clarice já puxando o assunto.
-Tia Clarice, pelo que eu entendi, as pessoas más vão para um lugar quente onde o diabo manda e desmanda e, quem faz o bem e agrada a Deus, vai morar no paraíso. Saiu-se assim Bito demonstrando ter entendido as palavras do padre.
-O céu é um lugar muito bonito onde todos vivem em harmonia inclusive os animais selvagens e pro inferno vão as pessoas que desobedecem Deus. Disparou logo a pequena Maú de modo determinado.
-Muito bem minhas amadas crianças! Que bom que vocês já entenderam e sabem a diferença básica sobre o que é o céu e o que é o inferno. Já fica fácil então para a Tia Clarice começar a ensinar a partir do que vocês dois entenderam da homilia do nosso querido padre. Explicou a sábia catequista.
-Quando Deus criou o mundo, Ele jamais pensou em manter sua criação onde houvesse divisões entre céu e inferno ou entre bem e mal. Entretanto, quando Deus precisou colocar alguém para cuidar da sua criação, Ele pensou em deixar essa tarefa para um casal chamados Adão e Eva. Porém, o Criador não imaginava que a ambição e os desejos físicos fossem dominar sua obra mais sublime e daí surgiu o pecado. O homem então se separou de Deus e preferiu viver uma vida onde o bem e o mal também estivessem presentes. Ensinou com firmeza D. Clarice.
-Quer dizer então D. Clarice, que o mal entrou no coração da criatura de Deus por causa do pecado cometido por Adão e Eva? Quis saber vovó Enáni.
-De certo modo sim. O homem achava que poderia mandar mais do que Deus e essa cobiça deu lugar aos desejos mais impróprios determinando então a separação entre o que era o bem e o mal. Explicou D. Clarice.
-Mas o que são e onde entram então na vida da humanidade, obra de Deus, o céu e o inferno? Indagou vovô Onaldo.
-Desde o Antigo Testamento as escrituras já nos falavam da existência do céu e inferno apesar de não ser uma manifestação clara da Palavra. No livro do Deuteronômio fala-se em “habitação dos mortos”. O profeta Daniel expõe que “alguns despertarão para a infâmia eterna”, o que dá a ideia de uma separação entre bons e maus a partir também de extrações dos profetas e dos salmos. Mas, no Novo Testamento, temos muitas e muitas citações sobre céu e inferno. São João Batista o profeta precursor de Jesus, seu primo, fala abertamente sobre o lugar “do fogo inestinguível onde o verme não morre e o fogo não se apaga”. Tudo está lá nos evangelhos de Mateus e Marcos. Explicou a catequista.
-Mas Tia Clarice, porque então que muitos vão para o inferno? Indagou Bito.
-Todas as criaturas de Deus têm o livre arbítrio para escolher entre a prática do bem e do mal. Ele permite que, apesar de sermos suas criaturas, possamos aprender uma e outra coisa e definirmos o que faremos. Porém, as consequências das nossas escolhas, têm um preço. O inferno é a escolha pela separação eterna de Deus indo para um lugar de sofrimento e dor eternas. Os pecadores não arrependidos, aqueles que não seguem os mandamentos de Deus, os avarentos, os libertinos, os que roubam e matam e os maus de um modo geral, herdarão o lugar de tristeza e agonia. Completou D. Clarice.
-Quem fizer o bem e obedecer a Deus vai pro céu? Mas o que tem lá no céu? Quis saber Maú.
-Muito bem minha criança! Ao contrário do inferno, o céu ou o paraíso, é o lugar de habitação dos justos, dos humildes, dos seguidores da Palavra de Deus, daqueles que praticam o bem, dos despojados de riquezas, dos injustiçados, dos que amam e respeitam as coisas do céu e dos que acreditam na existência da vida após a morte. Lá é o lugar da felicidade eterna. São Paulo, fazendo uma clara alusão ao céu, nos ensina que “coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos, nem o coração imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam”. E como nos ensinou Santo Agostinho, será o lugar onde:”Descansaremos e contemplaremos e amaremos e louvaremos”. Nos Atos dos Apóstolos assim está definido sobre o que é o céu:” “…Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens. Habitará com eles e serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles. Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição…. Estaremos unidos aos anjos e santos glorificando e adorando a Deus: “… vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda a nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono do cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão… e todos os anjos estavam ao redor do trono, dos anciãos e dos quatro animais; prostravam-se de face em terra diante do trono e adoravam a Deus”. Completou desse modo a preparada e experiente catequista.
-Estou maravilhado com suas explicações D. Clarice pois nunca tinha aprendido tão bem sobre o céu e inferno e a senhora nos proporcionou momentos muito edificantes de aprendizado e crescimento na fé. Se expressou uma vovó Enáni extasiada.
-Pra mim agora ficou mais fácil obedecer a Palavra de Deus e seguir seus mandamentos porque sei com clareza para onde quero ir no dia da minha morte se eu praticar as coisas de Deus e da Igreja. Ponderou um vovô Onaldo pra lá de animado na fé.
-Vamos então agradecer a Deus por ter nos proporcionado essa tarde maravilhosa? Em oração, vamos pedir a Deus que nos guie na nossa caminhada de fé como famílias cristãs de verdade e que sempre nos cubra de proteção para que sigamos rumo ao céu e nos livre das tormentas do inferno. Peçamos também à nossa Mãezinha do Céu que nos oriente e interceda por todos os filhos e filhas de Deus para que sigam sempre pelos caminhos que conduzem ao paraíso. Assim pediu D. Clarice.
E todos de mãos dadas postaram-se de pé e entoaram um Pai Nosso, três Ave Marias e um Creio em Deus Pai.
Amém!
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