O episódio da rejeição do requerimento 1274/2018, apresentado pela vereadora Joana D´Arc (PR), que solicitava audiência pública para debater o tema “LGBTfobia, perspectivas sociojurídicas e evolução da proteção legal municipal ao segmento” mostrou a radicalização e força da bancada evangélica na Câmara Municipal de Manaus. Comandados pelo vereador Marcel Alexandre (PHS), apóstolo do Ministério Internacional da Restauração, eles barraram a proposta, em represália contra utilização irônica de símbolos cristãos em manifestações recentes do segmento (veja artigo na sessão de artigos do blog).
“Preciso lembrar que aqui é a casa do povo, as pessoas nos procuram para que possamos dar voz às suas causas. Quem entende um pouquinho de legislação vai entender que existe o espírito democrático do debate. Todo mundo tem direito às audiências públicas. Se amanhã virem aqui as pessoas que não gostam dos animais eu vou ter que votar favorável para que tenham direito ao debate”, protestou a vereadora.
O caso foi mais explorado na mídia por causa do debate entre D´Arc e o vereador evangélico Felipe Souza (PHS), que presidia a sessão. O pano de fundo, porém, é a radicalização do discurso da bancada evangélica, que acontece não apenas em Manaus, mas também em nível nacional, principalmente em relação ao movimento LGBT.
A repercussão foi tão grande que o presidente da Câmara, Wilker Barreto (PHS), utilizou a tribuna, ontem, para rechaçar “qualquer possível posicionamento homofóbico por parte do Poder Legislativo”. Ele fez questão de relacionar as inúmeras atividades promovidas – entre audiências públicas e tribunas populares -, com foco na causa LGBT.
“A Câmara jamais fechou suas portas. Não tenho relatos, nestes meus dez anos de parlamento, sendo quatro como presidente, de que algum grupo tenha nos procurado e encontrado a porta fechada. Não posso deixar que deem à Casa uma pecha que não é dela. Como uma Câmara pode ser taxada de homofóbica com agenda positiva e de tantos compromissos relacionados à causa?”, questionou o presidente.
Outro que tentou colocar panos quentes foi o presidente da Comissão de Direitos Humanos, Plínio Valério (PSDB). Pré-candidato ao Senado, ele se preocupou em não passar uma imagem de homofóbico. Lembrou que, no dia 24 de agosto de 2017, promoveu uma reunião exclusiva para movimentos LGBTs.
“Nove representantes estiveram presentes. Enumeramos as prioridades do segmento a serem resolvidas e entre elas estava o retorno da Parada Gay para a Ponta Negra. O telefonema para o Manaustrans saiu desta Casa. O ofício pedindo a Ponta Negra saiu do gabinete, portanto, desta Casa. O carro que levou o ofício de solicitação era da Casa. A Parada Gay voltou”, disse ele.
“Essa Casa tem feito sim seu papel. A comissão tem sua pauta própria. Quando a vejo ser acusada de homofóbica, enquanto a comissão está tendo total liberdade de fazer o que quer, acho injusto e desleal. Após essa reunião, fizemos outra com todos os segmentos e ficamos de agendar nova”, concluiu.
Em release distribuído à imprensa, o presidente relacionou todas as atividades recentes, relacionadas à causa LGBT.
A força evangélica
O fato é que a bancada evangélica nunca foi tão grande na Câmara Municipal de Manaus. Além de Alexandre e Souza, compõem o grupo os vereadores Wallace Oliveira (Pode – Igreja de Deus Pentecostal do Brasil), Missionário André (PTC – Igreja Mundial do Poder de Deus), João Luiz (PRB – Igreja Universal do Reino de Deus), Amauri Colares (PRB – Assembleia de Deus), Roberto Sabino (PHS – Assembleia de Deus), Joelson Souza (PSDB – Assembleia de Deus), Dallas Filho (MDB – Assembleia de Deus Tradicional), Chico Preto (PMN – Nova Igreja Batista), Fred Motta (PR – Igreja da Graça), Gilmar Nascimento (PSD – Igreja Batista), Junior Resgate (PDT – Comunidade Evangélica) e Reizo Castelo Branco (PTB – Assembleia de Deus Madureira).
Além destes 14 vereadores, outros cinco se dizem simpáticos às causas evangélicas e votam com a bancada: Rosivaldo Cordovil (Pode), Professor Fransuá (PV), Daniel Vasconcelos (PMN), Claudio Proença (PR) e Professor Samuel (PHS).
No total, são 19 vereadores, quase a metade do total da Câmara. Esta semana, eles provaram que têm influência decisiva e podem dominar a pauta da Casa, para desespero dos vereadores liberais, que estão se sentindo emparedados e temerosos de que o Legislativo municipal fique rotulado como uma extensão das Igrejas Evangélicas.
Compartilhe isso:
- Clique para compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp
- Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
- Clique para compartilhar no X(abre em nova janela) 18+
- Clique para compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
- Clique para enviar um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
- Clique para imprimir(abre em nova janela) Imprimir




