Antes de votar, investigue

Você ainda usa cartão de visita?

Aquele com seu nome, seu contato e seu endereço? A primeira apresentação de um profissional para um cliente. Antigamente o cartão de visita vinha ainda acompanhado com algo que não era tangível, mas muito, muito mais importante para quem recebia o cartão: a reputação.

Vivemos num mundo em que alguns posicionamentos deveriam ser básicos. Afinal, nossas ações formam o nosso verdadeiro cartão de visitas. O que fazemos mostra quem somos de verdade para as outras pessoas. Discursos bonitos ajudam, mas as atitudes diárias provam o nosso valor e definem a nossa reputação. Deveríamos ter a consciência que saber “pouco sobre uma pessoa”, que pede a nossa confiança, é um perigo para qualquer relação, seja profissional ou pessoal.

A eleição se aproxima e, mais uma vez, milhões de brasileiros serão convidados a entregar um poder extraordinário a pessoas que, muitas vezes, conhecem muito pouco. Curiosamente, antes de comprar um carro, o cidadão pesquisa defeitos, consumo, preço, procedência e reclamações. Antes de contratar alguém para trabalhar em sua empresa, pede referências. Mas, diante de um candidato que poderá administrar bilhões de reais e influenciar a vida de milhões de pessoas, bastam, às vezes, uma fala emocionante, um vídeo bem produzido, um slogan eficiente ou a promessa de que ele “É DO NOSSO LADO IDEOLÓGICO”. A pergunta deveria ser outra: Nós escolhemos candidatos ou escolhemos torcidas e depois procuramos um candidato para defender? Esse talvez seja um dos grandes problemas da política brasileira. Votar deveria ser um ato de julgamento.

Ninguém deveria receber um voto sem antes ser submetido à investigação do eleitor. Quem é essa pessoa? O que fez antes de entrar na política? Que cargos exerceu? Como administrou recursos públicos? Quais foram suas votações? Que compromissos assumiu? O discurso combina com o comportamento? Há coerência entre aquilo que promete hoje e aquilo que defendeu ontem? E há uma pergunta particularmente importante: O que esse candidato já fez quando teve oportunidade de fazer alguma coisa?

Promessas são gratuitas. Realizações têm custo. Um candidato pode prometer escolas melhores, hospitais modernos, segurança e combate à corrupção. Mas, se já ocupou cargos públicos, o eleitor tem o direito e o dever de perguntar: o que ele realizou? A democracia não deveria funcionar como uma agência de empregos para profissionais da promessa.

Afinal a política no Brasil é vocação ou meio de vida? O sociólogo alemão Max Weber, em A Política como Vocação (1919), fez uma distinção que continua incômoda mais de um século depois: há quem viva para a política e quem viva da política. Profissionalizar-se na atividade política não é, por si só, um pecado. Democracias precisam de pessoas experientes, preparadas e capazes de administrar o Estado. O problema começa quando o mandato deixa de ser um instrumento para servir ao público e se transforma no próprio projeto de sobrevivência do político. Para alguns, o cargo é uma missão. Para outros, é apenas um meio de vida. E o  eleitor deve se perguntar: Se essa pessoa perder a eleição, o que sobrará de sua trajetória? Existe uma profissão, uma obra, uma contribuição, uma causa? Ou toda a sua biografia depende da próxima eleição?

Nem todo político de carreira é oportunista. Mas todo eleitor deveria ser capaz de distinguir a vocação pública da profissão de se manter no poder. O dever de quem recebe poder O filósofo, político e orador romano Marco Túlio Cícero, em Dos Deveres (De Officiis, 44 a.C.), refletiu sobre a obrigação moral daqueles que participam da vida pública. Para Cícero, a justiça e o dever não poderiam ser sacrificados simplesmente pela conveniência pessoal. A pergunta que atravessa mais de dois mil anos chega intacta às eleições brasileiras: Quem quer governar para realizar algo para a sociedade,  e quem quer que a sociedade financie sua permanência no poder?

O cargo público deveria ampliar a responsabilidade de quem o ocupa, não o tamanho de seu privilégio. O político não é dono do Estado. O orçamento não é patrimônio do partido. O mandato não é propriedade de família. E o eleitor não é um fã-clube obrigado a defender seu ídolo quando os fatos se tornam inconvenientes. Elegível não significa recomendável

Existe uma confusão perigosa na democracia: acreditar que, porque alguém está legalmente apto a disputar uma eleição, é automaticamente digno de receber nosso voto. Não é. Elegibilidade é uma condição jurídica. Merecimento é um julgamento político e moral do eleitor. Uma candidatura pode ser legal e ainda assim representar despreparo, oportunismo, incompetência ou absoluta ausência de compromisso com o interesse público. É por isso que votar exige mais do que comparecer à urna. Exige investigação.

O eleitor precisa consultar informações públicas, comparar candidatos, verificar antecedentes, analisar propostas e, sobretudo, observar realizações anteriores. A democracia não exige que o cidadão seja cientista político. Mas exige que ele não seja voluntariamente ingênuo.

A psicologia ajuda a explicar por que tantas pessoas se recusam a enxergar defeitos no candidato que escolheram. O viés de confirmação nos leva a procurar informações que reforcem aquilo em que já acreditamos. O efeito halo pode fazer uma característica positiva, carisma, eloquência, aparência ou identidade religiosa, contaminar toda a nossa avaliação sobre alguém. E existe ainda a força da identidade de grupo. O eleitor deixa de perguntar: “Quem é o melhor candidato?” E passa a perguntar: “Quem é do meu lado?” A partir daí, a verdade se torna negociável. Se o adversário erra, é um escândalo. Se o aliado erra, é perseguição. Se o adversário mente, é criminoso. Se o aliado mente, “todos fazem isso”. Essa não é uma democracia madura. É uma arquibancada com urnas.

Esquecemos que o poder precisa ser fiscalizado. O filósofo francês Montesquieu, em Do Espírito das Leis (1748), tornou-se uma das grandes referências do pensamento político moderno ao defender limites e controles sobre o poder. A lição continua essencial: Não devemos depender da bondade presumida de quem governa. Nenhum candidato deveria ser considerado tão virtuoso que dispense fiscalização. Nenhum partido deveria ser considerado tão necessário que seus erros precisam ser escondidos. Nenhum líder deveria ser tão importante que a verdade precisa ser sacrificada para protegê-lo. A democracia saudável não é aquela que encontra políticos perfeitos. É aquela em que os cidadãos aprendem a desconfiar do poder,  inclusive do poder exercido por aqueles de quem gostam.

Aqui cabe a pergunta: Há esperança para a política brasileira? Sim. Apesar da baixa escolaridade, das dificuldades de interpretação, da desinformação e da brutal transformação da política em entretenimento, não existe condenação histórica. O cidadão pode aprender a votar melhor. E talvez o primeiro passo seja abandonar a ideia de que política é um assunto distante. Não é.

A política decide quanto dinheiro haverá para saúde, educação e segurança. Decide prioridades, impostos, infraestrutura, universidades, transporte e serviços públicos. Quem diz “eu odeio política” frequentemente esquece que a política não precisa do seu interesse para continuar interferindo na sua vida. Não precisamos esperar que todos os brasileiros leiam tratados de filosofia política. Podemos começar com sete perguntas: Quem é esse candidato? O que ele já fez? O que realizou quando teve poder? Suas promessas são possíveis? Seu discurso combina com sua história? Quem ganha quando ele vence? E, talvez a mais importante: Eu votaria nele se não pertencesse ao meu lado político?

Temos que aprender que a eleição começa antes da urna. Do ponto de vista da consciência do voto é absurdo que a grande maioria dos brasileiros escolham em quem vão voltar uma semana antes ou só no dia da eleição. ETalvez os maus políticos não sejam apenas produzidos pela corrupção, pelos partidos ou pelo sistema. Talvez também sejam produzidos por uma cidadania que pesquisa pouco, exige pouco e perdoa demais quando o erro é cometido pelo próprio ídolo. O Brasil não precisa apenas de candidatos melhores. Precisa de eleitores mais difíceis de enganar. Que não sejam tão ingênuos. Porque, no fim, a pergunta mais importante de uma eleição talvez não seja: “Em quem você vai votar?” Mas: “O que você fez para descobrir se essa pessoa merece o poder que você está prestes a entregar?” E você? Pede o cartão de visita do político que pede seu voto? Qual a reputação que ele entrega? Pense nisso.

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