Análise: entenda como mudou o eixo do poder no Tribunal de Justiça do Amazonas e o que levou a mais votada pelos advogados a não entrar na lista tríplice

A escolha do advogado Marco Aurélio de Lima Choy para ser o novo desembargador representando o Quinto Constitucional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-AM) não chegou a ser uma surpresa. Ela estava desenhada há alguns anos, mas fatores inesperados chegaram a ameaçá-la. A mudança no eixo do poder do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), entretanto, foi fundamental para que a decisão de ontem fosse tomada.

Tudo começou em 2013, quando o Pleno do TJAM aprovou o aumento do número de desembargadores, de 19 para 26. A partir dali uma nova geração chegou ao colegiado e começou a mudar seus rumos. Até então dois grupos disputavam a hegemonia da Justiça Amazonense, um deles liderado pelo desembargador Flávio Pascarelli e outro comandado pela desembargadora Graça Figueiredo. Com a posse dos novatos, o primeiro se movimentou melhor e assumiu o controle.

Na esteira desses acontecimentos, acontecia em Brasília uma ascensão poderosa que começou a influenciar o Judiciário amazonense. Em 2008 o então procurador de Justiça do Amazonas, Mauro Campbell Marques, tornava-se o primeiro amazonense a tomar posse como ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Aos poucos ele foi ganhado espaço e crescendo no cenário nacional, até tornar-se corregedor em 2024. Como o Poder se move por hierarquia, as decisões tomadas pelos desembargadores no Amazonas via de regra subiam às cortes superiores, em Brasília, e na prática ele passou a ser a maior autoridade da área no Estado.

A convivência de Campbell com os desembargadores amazonenses sempre foi amistosa e até colaborativa. O relacionamento com Flávio Pascarelli remontava à época em que o ministro era promotor e abrigou em sua casa na cidade de Manicoré o jovem juiz. Aos poucos, entretanto, a influência de um foi aumentando no Judiciário local e a do outro diminuindo.

No ano passado Pascarelli decidiu dar uma cartada decisiva: lançou a ex-esposa, a advogada Giselle Falconi, para concorrer ao Quinto Constitucional. Até ali, o alinhamento entre a direção da OAB-AM e o TJAM favorecia totalmente a escolha de Choy. Mas a entrada dela na disputa mudou tudo. Na campanha, a rivalidade entre os dois ficou evidente e ela terminou como a mais votada.

Mauro Campbell não entrou na campanha de nenhum dos candidatos, mas tinha um amigo na disputa: João Tolentino. E a maioria dos advogados sabia disso, mas preferiu votar em outros seis candidatos e ele ficou fora da lista sêxtupla encaminhada ao TJAM.

Foi aí que o ministro decidiu entrar discretamente na disputa. Uma autoridade como ele não precisa pedir votos formalmente. Mas a manifestação de seus amigos é facilmente interpretada como uma preferência dele. E estes chegados passaram a se movimentar nos bastidores. Foi quando o trio Grace Benayon, Choy e Carlos Alberto se consolidou e Giselle ficou fora da lista tríplice.

O discurso de Pascarelli na sessão em que a lista foi escolhida deixou muito clara a influência do ministro, mas também evidenciou que há um novo grupo, abençoado pela autoridade nacional, no comando do TJAM.

Os 18 desembargadores que votaram no trio tendem a influir decisivamente nos destinos do TJAM nos próximos anos. Sairão daí os próximos presidentes e corregedores.

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