Advogada alerta para número cada vez maior de pessoas afastadas do trabalho por causa de transtornos mentais

O Brasil voltou a registrar um recorde de afastamentos do trabalho por transtornos mentais. Dados do Ministério da Previdência Social, apontam que mais de 540 mil trabalhadores precisaram se afastar de suas atividades em 2025 em razão de transtornos como ansiedade, depressão e síndrome de burnout. O número representa o maior volume registrado na última década e reforça um cenário de crescente adoecimento mental entre os profissionais brasileiros.

Ao todo, o país contabilizou cerca de 4 milhões de licenças médicas no ano, sendo mais de meio milhão relacionadas à saúde mental. O avanço dos casos chama a atenção de especialistas e amplia o debate sobre a necessidade de empresas adotarem medidas efetivas para prevenir o adoecimento psicológico no ambiente de trabalho.

Para Roberta Marques, advogada, psicóloga e especialista em saúde mental, os números refletem uma transformação na dinâmica das relações de trabalho.

“Os transtornos mentais já representam um dos principais fatores de afastamento dos trabalhadores brasileiros. Esse crescimento demonstra que muitas empresas ainda não conseguem identificar e controlar fatores que contribuem para o adoecimento emocional”, afirma.

Segundo a especialista, além do impacto humano, o aumento dos afastamentos também provoca prejuízos financeiros decorrentes da perda de produtividade, aumento do absenteísmo, rotatividade de profissionais e crescimento dos passivos trabalhistas.

Nova NR-1 amplia responsabilidade das empresas

O crescimento dos afastamentos ocorre em um momento em que as organizações precisam se adequar às atualizações da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a reforçar a necessidade de identificação, avaliação e gerenciamento dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho.

“A NR-1 deixa claro que os riscos psicossociais precisam ser tratados com a mesma seriedade dedicada aos riscos físicos e operacionais. Isso significa mapear situações que favoreçam o adoecimento emocional, implementar ações preventivas e desenvolver uma cultura organizacional mais saudável e segura para todos”, destaca.

A especialista ressalta que o cumprimento da norma vai além da elaboração de documentos e exige uma mudança efetiva na gestão de pessoas.

Aspectos jurídicos e psicológicos caminham juntos

Com formação em Direito e Psicologia, Roberta Marques explica que a prevenção deve integrar tanto a perspectiva jurídica quanto a psicossocial.

“Quando falamos de saúde mental no trabalho, estamos tratando de pessoas, mas também de responsabilidade legal. Empresas que deixam de prevenir situações de violência psicológica, assédio moral ou ambientes “adoecedores” podem enfrentar ações trabalhistas, pedidos de indenização e danos à própria reputação institucional.”

Investir na prevenção dos riscos psicossociais traz benefícios tanto para os trabalhadores quanto para as empresas. Além de contribuir para a redução de conflitos e passivos trabalhistas, a promoção de um ambiente emocionalmente saudável fortalece as relações entre as equipes, melhora o desempenho organizacional, favorece a retenção de talentos e cria uma cultura corporativa mais segura, produtiva e sustentável.

Diante do cenário de crescimento dos transtornos mentais no país, a especialista defende que a prevenção seja encarada como uma estratégia permanente de gestão.

“A saúde mental precisa deixar de ser discutida apenas quando ocorre um afastamento. O verdadeiro desafio é criar ambientes em que o adoecimento seja prevenido antes que ele aconteça. Empresas que compreendem essa realidade estarão mais preparadas para enfrentar os desafios atuais e futuros do mundo do trabalho”, conclui.

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