Fofoca: quem nunca foi vítima? Eu muitas vezes. E olha que eu sempre fui muito discreto e adepto de uma postura “low profile” na vida privada e na profissional.
O fato é que:
“Uma boa ação raramente vira manchete. Um escândalo raramente deixa de virar.”
Se amanhã um grupo de estudantes brasileiros conquistar o primeiro lugar em uma olimpíada internacional de matemática, provavelmente a notícia aparecerá discretamente em um portal especializado ou em uma nota de rodapé. Mas basta um casal famoso anunciar o divórcio, um político ser filmado em uma discussão, um artista envolver-se em um escândalo ou um crime particularmente cruel acontecer para que milhões de pessoas interrompam o café da manhã, compartilhem links, comentem nas redes sociais e transformem aquilo no assunto do dia.
Não é que descobri que tem muita Biologia, Antropologia, Sociologia e Psicologia nas respostas a esta pergunta: Somos naturalmente fascinados pelo lado sombrio da existência? Ou será que alguém descobriu que o medo, o conflito e a curiosidade vendem mais do que esperança? A resposta, como quase tudo envolvendo comportamento humano, é inquietante para quem se propõe a pensar: há ciência suficiente para mostrar que existe uma predisposição biológica para prestar mais atenção ao negativo. Mas existe também uma indústria inteira que aprendeu a explorar essa predisposição.
Na psicologia existe um conceito extremamente bem documentado: negativity bias, ou viés da negatividade. Os psicólogos Roy Baumeister (estadunidense), Ellen Bratslavsky (canadense), Catrin Finkenauer (holandesa) e Kathleen Vohs (estadunidense), no influente artigo “Bad Is Stronger Than Good” (2001), demonstraram que experiências negativas produzem impacto psicológico muito maior do que experiências positivas. Em outras palavras: uma crítica pesa mais que dez elogios. Uma notícia ruim permanece mais tempo na memória. Uma ameaça recebe mais atenção que uma oportunidade. Isso não surgiu por acaso. Durante centenas de milhares de anos, ignorar uma flor bonita não matava ninguém. Ignorar um predador escondido atrás da moita podia significar a morte. Nosso cérebro evoluiu priorizando perigos. A sobrevivência veio antes da felicidade.
A fofoca costuma ser tratada apenas como um defeito moral. Mas a antropologia conta outra história. O antropólogo britânico Robin Dunbar, em Grooming, Gossip and the Evolution of Language (1996), propõe que a fofoca foi uma ferramenta evolutiva. Em grupos pequenos, saber quem traiu, quem cooperou, quem mentiu ou quem era confiável aumentava as chances de sobrevivência. A fofoca funcionava como um mecanismo de inteligência social. Ou seja: nosso cérebro aprendeu que informação sobre outras pessoas pode ser uma vantagem evolutiva. O problema é que hoje não vivemos mais em aldeias de cinquenta pessoas. Vivemos conectados a bilhões. A antiga ferramenta de sobrevivência virou entretenimento industrial.
O filósofo alemão Arthur Schopenhauer, em O Mundo como Vontade e Representação, observava que os seres humanos demonstram enorme curiosidade pelas misérias alheias. Sua visão pessimista era de que o sofrimento do outro frequentemente desperta comparação e, às vezes, até um sentimento silencioso de alívio. Essa percepção dialoga com o conceito alemão Schadenfreude que define: o prazer diante da desgraça alheia, conceito amplamente estudado pela psicologia contemporânea. Não significa que todos sejam cruéis. Mas significa que comparar-se constantemente faz parte da forma como avaliamos nossa posição social. Quando uma celebridade “cai”, muitos sentem e pensam, ainda que inconscientemente: “Então ela não era tão perfeita assim.”
Na Poética, o filósofo grego Aristóteles afirmava que tragédias despertam medo e piedade, produzindo catarse, uma espécie de purificação emocional. Talvez seja por isso que crimes, desastres e escândalos nos prendam tanto. Eles permitem experimentar emoções intensas sem estar diretamente envolvidos. É um consumo seguro do perigo. Hoje chamamos isso de entretenimento. Os gregos chamavam de tragédia.
E assim os donos de empresas de notícias descobriram o que vende. Existe um antigo ditado nas redações: “Good news is no news.” (“Boas notícias não são notícia.”) A frase nunca foi uma regra ética. Foi uma constatação comercial. Conflito gera atenção. Atenção gera audiência. Audiência gera publicidade. Publicidade gera lucro. O filósofo francês Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo, alertava que o espetáculo não informa prioritariamente para esclarecer, mas para capturar a atenção. A lógica contemporânea não é perguntar: “O que é mais importante?” Mas: “O que mantém as pessoas olhando para a tela por mais tempo?”
O educador, crítico da mídia e teórico da comunicação norte-americano Neil Postman, em sua obra Divertindo-nos até a Morte (Amusing Ourselves to Death, 1985), fez uma advertência que parece ter sido escrita para a era das redes sociais. Segundo ele, quando a informação é transformada em entretenimento, o critério deixa de ser sua relevância para a sociedade e passa a ser sua capacidade de prender a atenção do público. Postman escreveu isso antes da internet, do Facebook, do Instagram, do TikTok e dos algoritmos que hoje disputam cada segundo da nossa atenção. Ainda assim, antecipou com notável precisão o rumo que a comunicação seguiria.
Hoje, as plataformas digitais não perguntam se uma notícia é importante, verdadeira ou socialmente útil. Perguntam apenas se ela fará alguém parar o que está fazendo para clicar, comentar ou compartilhar. Nesse ambiente, um escândalo envolvendo uma celebridade, uma briga política ou um crime bárbaro quase sempre vence a disputa contra uma descoberta científica, uma medalha conquistada por estudantes brasileiros em uma olimpíada internacional de matemática ou um avanço na medicina. Não porque sejam acontecimentos mais importantes, mas porque despertam emoções mais intensas e imediatas. O problema, portanto, não é apenas tecnológico. É cultural.
Como observava Postman, quando a lógica do entretenimento invade o jornalismo, a política e até a educação, corremos o risco de confundir aquilo que nos diverte com aquilo que realmente importa. Sua reflexão permanece extraordinariamente atual: uma sociedade que transforma toda informação em espetáculo acaba perdendo a capacidade de distinguir o essencial do apenas interessante. E, quando isso acontece, o escândalo passa a ocupar o lugar do conhecimento, enquanto o extraordinário silencioso, como o talento, a ciência e a educação… desaparece das manchetes.
Há dados concretos? Sim. Diversos estudos ajudam a explicar esse fenômeno. Em comunicação digital, um estudo publicado na revista Science (2017), liderado pelo psicólogo social norte-americano, William Brady e colaboradores, mostrou que conteúdos carregados de emoção moral (especialmente indignação) têm maior probabilidade de serem compartilhados nas redes sociais.
Já pesquisas do Pew Research Center (Washington DC, USA) indicam que acontecimentos dramáticos, conflitos políticos, crimes e crises concentram níveis muito superiores de interesse público e engajamento em comparação com notícias positivas ou rotineiras. Em outras palavras: não é apenas impressão. Há evidências consistentes de que conteúdos negativos capturam mais atenção, recebem mais compartilhamentos e permanecem por mais tempo na memória coletiva.
Em Humano, Demasiado Humano, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche sugere que muitas vezes nosso interesse pelos defeitos alheios nasce da necessidade de confirmar nossa própria superioridade. Não buscamos apenas informação. Buscamos comparação. Quando o outro fracassa… sentimo-nos relativamente melhores. É um mecanismo psicológico antigo.
A alemã naturalizada norte-americana Hannah Arendt, em A Condição Humana, lembrava que uma sociedade pode perder a capacidade de distinguir o que realmente importa quando o espaço público passa a ser ocupado pelo efêmero. Hoje sabemos quase tudo sobre o divórcio de um cantor. E quase nada sobre uma descoberta científica brasileira. Não porque a ciência deixou de existir. Mas porque o espetáculo venceu a relevância.
O problema não é gostar de uma fofoca ocasional. Isso faz parte da natureza humana. O problema começa quando toda a esfera pública passa a funcionar segundo essa lógica. Se escândalo vende… produz-se escândalo. Se medo gera audiência… produz-se medo. Se indignação fideliza usuários… fabrica-se indignação diariamente. Nossa curiosidade deixou de ser apenas uma característica psicológica. Transformou-se no produto mais valioso da economia digital.
Isso nos leva a outra reflexão: O que estamos ensinando às próximas gerações? Uma criança abre o celular. Encontra primeiro: um assassinato. Depois: uma separação. Depois: uma discussão política. Depois: um influenciador expondo alguém. No fim da página, talvez encontre uma referência de boa ação pró coletivo. Não porque o bom exemplo seja menos importante. Mas porque ela produz menos cliques. Estamos treinando cérebros para acreditar que o extraordinário é o escândalo. Que a inteligência interessa menos do que o conflito. Que o mérito vale menos do que o escândalo.
Talvez a questão nunca tenha sido: “Por que as pessoas gostam de notícias ruins?” A pergunta correta hoje é: “Quem lucra mantendo nossa atenção permanentemente voltada para o pior da humanidade?” A biologia explica parte da história. A psicologia explica outra. A sociologia revela como essa predisposição foi organizada em sistema. E a economia mostra por que ela se tornou tão rentável. Talvez a maior tragédia do nosso tempo não seja o fato de existirem más notícias. Elas sempre existiram. A verdadeira tragédia é que passamos a acreditar que elas são as únicas notícias que merecem nossa atenção.
Como advertia o pensador estoico Marco Aurélio, em Meditações: “A alma torna-se da cor dos seus pensamentos.” Se diariamente alimentamos nossa mente apenas com escândalos, tragédias e conflitos, talvez não estejamos apenas consumindo notícias. Estejamos, silenciosamente, moldando a maneira como enxergamos o mundo. Afinal, um mundo visto apenas através das manchetes mais sombrias dificilmente parecerá um lugar onde ainda valha a pena celebrar o conhecimento, a virtude ou a esperança.
E você já havia pensado sobre isso? Como você lida com a “fofoca” no seu dia-a-dia?
Compartilhe isso:
- Clique para compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp
- Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
- Clique para compartilhar no X(abre em nova janela) 18+
- Clique para compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
- Clique para enviar um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
- Clique para imprimir(abre em nova janela) Imprimir




