A desistência do eleitor consciente

“A culpa de tantos escândalos, de tanta corrupção na política é de vocês, pois vocês não sabem votar.”

Incrédulo. Assim fiquei quando ouvi essa frase durante a campanha eleitoral de 2002. Foi num comício num bairro de Manaus. O autor? Senador Jefferson Péres (PDT), buscando a reeleição para o Senado Federal. Sim, ele brigava com seu eleitor. Falava verdades sem constrangimento. Eu fui convidado para coordenar seu marketing eleitoral naquela campanha. Com um slogan direto: “Vote 1,2,3 é Jefferson outra vez!” ajudamos a reeleger o senador, desbancando o também senador Bernardo Cabral, relator da Constituinte de 1988. Jefferson Péres defendia a moral e a ética na política e teve grandes votações. Exerceu dois mandatos de vereador e depois se elegeu direto para o Senado, num feito histórico para a política amazonense. No Senado era referência de honestidade e foi relator da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Jefferson Péres, na minha humilde opinião, foi o político, entre tantos outros defensores da moralidade, no Amazonas e no Brasil,  mais próximo do sonho da classe média brasileira, do que seria um servidor público de cargos eletivos. Algo como os representantes suecos que ganham salários nada extravagantes e vão pro trabalho de bicicleta, (rs). Lembrando do saudoso senador e amigo, decidi expor um pouco sobre o que penso do atual cenário político eleitoral brasileiro. Vamos lá! Com filosofia, sociologia e psicologia.

“A saúde das democracias depende de um pequeno detalhe técnico: o comportamento dos cidadãos.”

A observação do filósofo espanhol José Ortega y Gasset, em A Rebelião das Massas (1930), continua desconfortavelmente atual. Durante muito tempo, acreditou-se que o maior perigo para a democracia era a revolta popular. Que sociedades livres corriam mais riscos quando as pessoas gritavam demais, protestavam demais ou se indignavam demais. Talvez o problema contemporâneo seja exatamente o contrário. Talvez o maior perigo surja quando elas param de gritar.

O Brasil parece estar se aproximando desse ponto. Não porque os brasileiros tenham abandonado seus valores. Muito pelo contrário. O brasileiro continua valorizando honestidade, trabalho, segurança, justiça e dignidade. Continua rejeitando a corrupção quando a encontra. Continua desejando serviços públicos que funcionem e representantes que cumpram a palavra. O que mudou foi algo mais profundo. Muitos já não sabem se acreditam que a política seja capaz de entregar aquilo que promete. E isso é mais grave do que parece. Afinal, os escândalos perderam a capacidade de chocar?

A psicologia conhece um fenômeno chamado dessensibilização. Quando um estímulo se repete continuamente, sua capacidade de provocar reação diminui. O que inicialmente produz indignação acaba produzindo fadiga. E, por fim, produz indiferença.

Durante décadas, os brasileiros foram expostos a uma sequência quase ininterrupta de denúncias, investigações, escândalos, prisões, delações, anulações, acusações e contra-acusações. O resultado não foi indignação infinita. Foi anestesia. Quando tudo parece corrupção, nada mais parece excepcional. Quando todos acusam todos, surge uma conclusão emocional devastadora: “Ninguém presta.” Essa frase parece simples. Mas ela corrói silenciosamente a democracia. Porque uma democracia não depende apenas de eleições. Ela depende da crença de que existe diferença entre boas e más escolhas. Quando essa crença desaparece, a própria participação política começa a perder sentido.

Há um fato histórico no Brasil que políticos tradicionais e imprensa tradicional não deram muita importância, mas que foi o primeiro grito de uma classe média sufocada por tantos malfeitos políticos administrativos: as manifestações de junho de 2013 em São Paulo. Elas começaram por causa das tarifas de transporte público. Mas rapidamente ficou evidente que a explosão era muito maior. Havia uma sensação difusa de esgotamento. Corrupção. Serviços públicos deficientes. Distância entre governo e população. Instituições incapazes de responder às demandas da sociedade.

O filósofo social americano Eric Hoffer, O Verdadeiro Crente (1951), escreveu:

“Os movimentos de massa surgem quando as pessoas têm esperança suficiente para agir, mas frustração suficiente para desejar mudanças.”

Talvez nenhuma frase descreva melhor aquele momento. As ruas estavam cheias porque o país ainda acreditava que era possível mudar. O problema é que, depois do grito, muitos sentiram que ninguém respondeu. Vieram novas crises. Impeachment. Lava Jato. Polarização. Conflitos institucionais. Escândalos sucessivos. E uma sensação permanente de instabilidade.

O crítico cultural americano Neil Postman, Divertindo-nos até a Morte (1985), fez um alerta que parece escrito para a era das redes sociais:

“O problema não é que as pessoas sejam oprimidas, mas que se tornem distraídas.”

A política contemporânea tornou-se um fluxo contínuo de estímulos emocionais. Toda semana traz uma nova crise. Todo dia apresenta uma nova indignação. Toda discussão parece definitiva. Toda eleição parece apocalíptica. O resultado é um paradoxo. Quanto mais informação existe, mais difícil se torna distinguir o que realmente importa. Quanto mais escândalos aparecem, menos capacidade existe para reagir a eles. A atenção coletiva se fragmenta. A indignação se desgasta. E o cidadão comum transforma-se em espectador de uma disputa permanente. Nenhum organismo suporta viver em estado constante de alerta. Nenhuma sociedade suporta viver indefinidamente em tensão emocional.

Estamos vivendo uma fadiga da esperança? O Brasil vai ser uma eterna promessa de país de primeiro mundo? O escritor e estadista tcheco Václav Havel, O Poder dos Sem-Poder (1978), escreveu uma das definições mais belas de esperança:

“A esperança não é a convicção de que algo dará certo, mas a certeza de que algo faz sentido.”

Talvez seja justamente “esse sentido” que muitos brasileiros estejam perdendo. Não necessariamente a esperança de vitória. Mas a esperança de que participar ainda faça diferença. O sociólogo alemão Max Weber, A Política como Vocação (1919), ensinava que nenhuma autoridade se sustenta apenas pela força ou pela burocracia. Ela precisa de legitimidade. E legitimidade depende de confiança. O cientista político americano Robert Putnam, Bowling Alone (2000), resumiu essa ideia em uma frase simples:

“A confiança é o lubrificante da vida social.”

Quando a confiança desaparece, tudo continua existindo formalmente. As instituições continuam de pé. As eleições continuam acontecendo. As leis continuam sendo aprovadas. Mas o sistema começa a funcionar com dificuldade crescente. Como uma máquina que ainda opera, mas sem óleo lubrificante suficiente.

Muitos acreditam que a raiva é a maior ameaça para uma democracia. Nem sempre. A raiva ainda contém energia. A raiva protesta. A raiva exige mudanças. A raiva mobiliza. O verdadeiro perigo surge quando ela desaparece. Quando o cidadão deixa de acreditar que vale a pena lutar. O silêncio é mais perigoso. O pensador francês Alexis de Tocqueville, A Democracia na América (1835–1840), observou que as democracias dependem da participação ativa dos cidadãos em sua vida pública. Sem essa participação, as instituições permanecem. Mas seu espírito enfraquece. E talvez seja exatamente esse o desafio brasileiro. Não apenas escolher governantes. Mas reconstruir confiança. Não apenas vencer eleições. Mas restaurar significado.

A grande questão de 2026 talvez não seja apenas quem possui o melhor programa de governo. Nem quem possui a melhor comunicação. Nem quem domina melhor as redes sociais. A pergunta mais importante é outra: Quem conseguirá convencer o brasileiro de que a política ainda serve para alguma coisa? Porque o maior adversário de qualquer candidato talvez não seja o outro lado. Talvez seja o cansaço. Talvez seja a descrença. Talvez seja a lenta erosão da esperança coletiva.

Existe uma verdade desconfortável que atravessa toda a história das democracias: Povos revoltados ainda tentam mudar o mundo. Povos anestesiados apenas aprendem a conviver com ele. E por isso o som mais perigoso para uma democracia não é o grito das ruas. É o silêncio daqueles que desistiram de gritar. No caso do Brasil, a classe média está gritando e não está sendo ouvida. E a grande massa continua historicamente passiva. Até quando? Não sabemos.

E você? O que pensa sobre isto? Está cansado de tanta polarização? De tanta discussão ideológica? A quem interessa a discussão sem fim e sem resultados práticos que melhorem a vida do brasileiro?

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