A “bacana”

Nas próximas segundas feiras, vez por outra, vou publicar uma historinha infantil como prenúncio de poder lançar uma coletânea de textos dedicados aos baixinhos.

Quando criança, ao final das tardes, um programa de rádio muito popular, anunciava “as mais lindas histórias e mais belas cantigas infantis que você vai ouvir” pois era assim que começava o Teatrinho Infantil do Titio Barbosa, precursor de tantos quantos souberam dedicar parte das suas vidas a preencher, de sonhos e ternuras, a nossa infância feliz.
Removendo meu fabuloso e feliz passado juvenil, posso agora escrever muito daquilo que contei de modo lúdico para meus sobrinhos, meus filhos e mais recentemente para meus dois netinhos Benício e Malu. Então vamos lá!
Nas quentes e úmidas tardes amazônicas, especialmente depois de fazerem aquele lanche que somente a vovó Enáni sabia preparar com banana frita, tapioquinha, suco de maracujá, bolo de chocolate e ovo mexido, os primos Bito e Maú saíam correndo e saltitando feito cabritos em direção ao quintal onde, um pomar de frutas da região se destacava.
As frutíferas, juntamente com outras árvores da floresta estendiam-se até que o terreno, coberto de folhas secas, repousasse nas margens de um gélido igarapé que cortava a propriedade.
Bito, o mais velho, branquelo que só ele, era falante e compenetrado sempre protegendo Maú, uma moreninha de longos cabelos ondulados, franzina e nem por isso menos danisca.
Juntos, os dois precisavam sempre de alguém por perto a lhes controlar os impulsos infantis muito mais presentes quando dormiam nos finais de semana na casa dos avós e aprontavam todas.
Numa dessas tardes, num sábado, os primos resolveram se embrenhar pelo pomar à procura de ouvir o belo cantar de um curió, visitante assíduo daquele pedaço deslumbrante da natureza, que todos os dias por ali pousava, à procura de alimentos muito fartos no rincão.
-Bito! Instiga Maú já tomando as iniciativas para alguma peraltice.
-Vamos fazer uma “bacana”?(Bacana, era como ela denominava uma cabana, desde que aprendeu a falar alguns termos, porém, trocava as bolas). Eles adoravam brocar de construir cabanas pela casa usando lençóis, toalhas de mesa e outros panos.
-Maú, já está ficando escuro e hoje o Cucu(apelido que deram ao passarinho curió) não veio. Acho que ele ficou pelo caminho mas, amanhã, a gente trás umas frutinhas pra atrair ele aqui pro nosso quintal, completou Bito.
-Não, Bito! Noite passada eu sonhei que o Cucu viria bem mais tarde hoje e falou no meu ouvido pra gente fazer uma “bacana” e esperar por ele porque uma coisa linda ia acontecer.
-Tá bom Maú! Mas vamos avisar a vovó Enáni porque ela já deve estar agoniada pela nossa demora em voltar.
Lá seguiram então os dois priminhos de mãos dadas e, como sempre, ele com todos os cuidados para que a pequena Maú não tropeçasse nos galhos caídos na trilha que dava até à casa não muito distante de onde estavam.
Era uma ampla casa toda de madeira muito própria na região. Telhado em formato colonial com telhas em argila. Pintada de um tom azul claro com amplas janelas envernizadas onde, pelos vidros, podia se ver as cortinas floridas. Uma varanda rodeava toda o espaço da casa repleta de muitas plantas em vasos coloridos, cadeiras espreguiçadeiras, uma ampla mesa de tampo de madeira de lei, bancos corridos e mesinhas para as crianças, uma churrasqueira e redes penduradas para aquele descanso vespertino, completavam o cenário aconchegante.
Ao se aproximarem da casa, já os estava esperando na porta da ampla cozinha a vovó, com o coração na mão como ela mesmo falava.
-Crianças, já estava me arrumando pra ir em busca de vocês! Porquê a demora? Vamos entrem porque logo cai o sereno e a Maú é muito fragilzinha e pode pegar um resfriado e você Bito, amanheceu tossindo. Cuidem de entrar para tomar banho colocar os pijamas e se preparar pra jantar e dormir porque amanhã vamos pra missa bem cedo.
Trocando olhares interrogativos e de contrariedade para com as duras porém sempre preocupantes palavras da vovó, Bito e Maú entraram obedecendo aos reclamos e apelos da vovó.
Entretanto, foi só a vovó se afastar um pouco, cochichando, os dois murmuravam:
-A gente tem que voltar ao pomar ainda hoje para fazer uma “bacana” porque no sonho, o Cucu me falou que tinha uma bela surpresa para nós dois; como hoje a lua está brilhante, não podemos perder de jeito nenhum esse momento. Insistia Maú quase ao ouvido do primo Bito.
-Mas, como vamos escapar da vovó? Provocava Bito por entre os dentes com a boca quase fechada.
-Quando a vovó Enáni der a janta pra nós, aí ela vai pro quarto rezar o Rosário; é quando a gente aproveita e volta lá pro quintal. Arquitetava Maú.
E assim, tudo transcorreu exatamente como a peralta Maú havia planejado.
Foram então pro pomar levando um lençol, umas almofadas, uma pequena lanterna e duas garrafinhas de água. Estava escuro como breu porém, eles já estavam acostumados e se sentiam sempre seguros naquele espaço.
Mal começaram a construir a tal “bacana”, de longe, seus aguçados ouvidos, foram despertados pelo mais belo e conhecido canto de Cucu.
Não era um canto de qualquer curió; era o canto majestoso, afinado e inconfundível.
Cada vez o canto ficava mais próximo, mais audível e deslumbrante.
Bito e Maú ficaram parados, porquanto, nunca haviam experimentado momento tão diferente depois de anos acostumados com a visita e o canto de Cucu. Aquilo era absolutamente diferente pra eles.
-Tô assustado e arrepiado prima! Nunca passei por isso. Ponderou Bito.
Querendo demonstrar segurança e tranquilidade mas tremendo, Maú assim se expressou:
-Calma Bito, vamos completar a montagem da “bacana” e ver o que vai acontecer. Vamos fazer o seguinte? Cada um pega seu terço que a vovó nos deu de presente e a gente começa a rezar pedindo a Nossa Senhora que nos proteja e nos guie nessa noite. Saiu-se Maú com sua vozinha quase inaudível.
Mal começaram a rezar a primeira das três Ave Marias iniciais do Santo Terço, uma luz diferente pairou por sobre a “bacana” que haviam acabado de montar com o lençol azul celeste “roubado” do enxoval de cama da vovó.
Por entre os galhos das árvores daquele lugar, vazava uma tênue porém desconcertante luz que não vinha da lua nem de alguma estrela mais pulsante, já que o céu, nas noites daquele lugar, era de encher os olhos com tão fascinante visão.
Já na terceira Ave Maria introdutória do Santo Terço, os olhinhos de Bito e Maú paralisaram na mesma direção fixando-se por entre os troncos de duas belas e frondosas árvores. Uma portentosa castanheira do Brasil e um belo pé de manga rosa.
Partindo do mesmo ponto de luz, ressoava o canto de Cucu, porém, desta vez, em forma de uma bela e afinada voz infantil que dizia:
-Meus amiguinhos, eu sou o seu Anjo da Guarda. Hoje, especialmente, estou aqui para rezar com vocês a sublime oração do Santo Terço. Sei o quanto vocês têm seguido os ensinamentos de Deus. Mas isso não é o bastante. Orem, orem e orem pedindo a Papai do Céu que lhes conceda a graça de continuarem perseverantes na fé. Insistam na reza do Santo Terço todos os dias. Jejuem e façam penitência pelos pecados da humanidade, para que a guerra e as doenças acabem e para que a conversão alcance mais e mais as criaturas de Deus. Sejam crianças fiéis, perseverantes, serenas e obedientes aos seus pais e avós.
Com os olhos petrificados e a uma só voz os priminhos exclamaram: -Amém!
E prosseguiram a oração do Santo Terço na companhia do Anjo da Guarda até o fim, nem um pouco preocupados com o horário pois sabiam que lá em casa, vovó Enáni ainda estava ocupada a desfiar as contas do terço na recitação do Rosário.
Ao final, aquela luz foi se dissipando, o canto em forma de voz foi se esvaindo até que tudo voltou ao normal.
Radiantes, em obsequioso silêncio, com os terços nas mãos, Bito e Maú desmontaram a “bacana” pegaram seus apetrechos e retornaram pra casa iluminando a trilha com a lanterna.
Caminhavam confiantes e seus pensamentos inocentes estavam repletos de felicidade e enlevo. O sonho que Maú tivera na noite anterior, havia se concretizado da forma mais sublime possível.
Entraram em casa, foram para o quarto ainda em completo silêncio, até para evitar que vovó os surpreendesse e indagasse, muito comum nas suas insistentes intervenções quase interrogatórios.
Antes de dormir, aos pés da cama, de joelhos no chão e de mãozinhas postas ao peito em forma de amém, agradeceram a Deus e Nossa Senhora por tudo o que haviam experimentado naquela noite sem igual.
Pela manhã, já no domingo, foram à missa com seus avós e, joelhos no chão mais uma vez, agradeceram do Deus vivo presente no sacrário, por terem experimentado tão maravilhosa noite.

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