A advocacia em xeque

A justiça para ser encarada como bem universal que toda nação livre deve aplicar e preservar ou que qualquer cidadão possa se sentir protegido no seu pleno funcionamento, há que se sustentar nas figuras dos operadores do direito que tem na pessoa do advogado um dos seus mais importantes pilares de sustentação.
Direito, como o próprio nome diz, é a forma mais eloquente de promoção do acesso à justiça por meio da advocacia, entretanto, se exercido de forma inescrupulosa quando seus atores aproveitam-se da sua importância ou da sua necessidade para a operacionalização da justiça, temos seu total desvirtuamento e a perda da essência na aplicação da justiça.

A advocacia brasileira tem enfrentado transformações e passado por adequações desde a constituinte de 1988 como nunca antes experimentado e talvez rápido demais sem que a categoria estivesse preparada para encará-las, e, quando muitos dos seus membros perceberam que poderiam se agigantar nas abas dos poderes, foram com muita sede ao pote.

O domínio do parlamento pela presença maciça de advogados, a famigerada figura do quinto constitucional (uma reserva de mercado na justiça em quase todos os níveis a que só os advogados têm acesso) e o imbricamento da categoria com os poderes, provocaram a hipertrofia dessa classe dando margens para o envolvimento cada vez mais errático de membros expoentes com negócios escusos, ações duvidosas, desvios de comportamento e participação em operações financeiras e políticas pra lá de estranhas, ilegais e nocivas para todo o tecido social.

O que está sendo desvendado por uma operação policial por determinação da justiça e que envolve desvios de mais de 150 milhões por um grupo de advogados nacionalmente conhecidos por comandarem bancas milionárias que defendem até ex presidentes da república, corrobora com a hipótese de que a advocacia está em cheque na medida em que alguns componentes da categoria descobriam a forma e a fórmula de meter a mão na grana pública e, o que é mais grave, montaram verdadeira rede de interesses com tentáculos em tribunais superiores por meio de advogados que são filhos de ministros dessas cortes, numa engenhosa armação em que se recebem honorários por serviços nunca prestados, porém, pagos com dinheiro de renúncia fiscal da indústria em favor de outra excrescência da legislação brasileira que é o famigerado Sistema S.

Essa escabrosa engenharia que manipula entidades e desvirtua finalidades por meio da ação de verdadeiras quadrilhas de assaltantes de paletó e gravata, é o jeito que alguns causídicos encontraram para se aproveitar das brechas da lei e enriquecer às custas do erário operando à margem da justiça e da ordem em proveito próprio e de poucos.

Triste momento esse enfrentado pela advocacia nacional que outrora tinha nas figuras de um Sobral Pinto, Rui Barbosa ou Lins e Silva figuras ímpares, sóbrias e dispensadores do verdadeiro direito a tantos quantos se socorreram dos seus honrados serviços.
Sabiamente um dia o legislador criou a a figura dos conselhos de classe, organismos paraestatais encarregados de proteger a sociedade dos maus profissionais e, autorizadas a punir, advertir, suspender ou expulsar das fileiras dessas entidades aqueles que se desvirtuarem ética e moralmente por terem comprometido o bom nome das categorias as quais representam.

Hoje, diante desse quadro de degradação moral de muitos advogados, o que diz ou o que faz a OAB? Simplesmente ignora os fatos e as provas e vocifera contra a justiça e contra a imprensa dizendo que estão impedindo o exercício da profissão. Isso é de uma desfaçatez abissal! Já tivemos melhores dias de OAB.

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