Este mês de março de 2026 eu e minha família e amigos mais próximos, vivemos dias de muita angústia e aflição com a saúde do meu filho mais novo, o Messias Netto, 14 anos, 190 cm de altura e 125 kg de peso (puxou o DNA dos alemães da família Bentes, rs). Desde o final do ano passado ele começou a reclamar da visão na sala de aula, com uma súbita dificuldade de enxergar a lousa. Pensando que se tratava apenas da necessidade de usar óculos como consequência do excesso de tela, fomos a uma oftalmologista. Nos exames tomei um susto. Não havia grau de óculos para ele, disse a doutora. Ele não enxergou nem as letras grandes nem as pequenas.
Busquei uma segunda opinião, meu primo oftalmologista Dr. Gilson Bentes. O diagnóstico foi o mesmo: não seriam óculos que resolveriam a questão. Mas Gilson constatou através de exames que os nervos oculares estavam “esbranquiçados” e encaminhou para um terceiro oftalmologista especialista, Dr, Rafael Azevedo, que confirmou a suspeita em relação aos nervos e pediu uma ressonância magnética do crânio e dos nervos oculares. Fizemos a ressonância no mesmo dia e o diagnóstico veio 3 dias depois: Messias estava com uma Hidrocefalia Obstrutiva (crânio cheio do líquido normalmente produzido pelo cérebro e que é expelido do corpo através do aparelho digestivo), que estava causando pressão intracraniana e esmagando os nervos dos olhos. No caso do meu filho a passagem se fechou naturalmente, talvez pelo crescimento precoce dele. Situação que se não fosse resolvida levaria ele a ficar cego permanentemente.
De posse do laudo da ressonância, através de uma indicação da Suzane Santos, representante comercial de produtos médicos, mãe da Sophia, colega de aula do Messias, chegamos ao neurocirurgião Dr. Roberto Lima. Este foi taxativo: o caso exigia urgência e o melhor procedimento cirúrgico seria uma endoscopia cerebral. Uma cirurgia menos invasiva onde se cria uma passagem no crânio onde um sistema com câmera e bisturi cria uma nova passagem para o fluxo natural do líquido cerebral.
Assim chegamos aos cuidados dos excelentes profissionais do Hospital Universitário Getúlio Vargas, o HUGV, de Manaus, órgão federal do SUS, o Sistema Único de Saúde. Depois das providências necessárias e, num segundo momento, respeitando os protocolos do hospital no trato com crianças e adolescentes, esse procedimento delicado e usando alta tecnologia foi realizado no último dia 25 de março. A cirurgia, realizada pela equipe do experiente neurocirurgião Dr. Robson Amorim, foi um sucesso. Messias teve alta no dia seguinte direto da UTI para casa. Cumpre agora 15 dias de repouso absoluto e só ficou nervoso na troca de curativo quando constatou que seu crânio foi furado. Com a graça de Deus e dos médicos ele diz que já consegue enxergar as formiguinhas que aparecem no quarto.
Quem me conhece sabe que sempre fui “Low Profile”. Nunca gostei da exposição da minha vida profissional e familiar. Resolvi expôr esta recente experiência com a saúde do meu filho para fazer justiça: O SUS é uma benção na vida do brasileiro e é sustentado por profissionais entre os mais competentes no mundo.
Existe uma pergunta simples que revela muito sobre um país: o que acontece quando você adoece sem dinheiro? No Brasil, a resposta tem nome: Sistema Único de Saúde. E isso, por si só, já é extraordinário.
Quando a Constituição de 1988 declarou que saúde é direito de todos e dever do Estado, o Brasil tomou uma decisão civilizatória rara: ninguém seria abandonado por falta de dinheiro. O SUS começou a funcionar plenamente em 1990, após a Lei 8.080. Até então, saúde pública era privilégio de quem tinha emprego formal (com carteira assinada). Os demais dependiam de caridade, favores ou sorte. A criação do SUS foi uma ruptura histórica. Uma aposta ousada: oferecer saúde universal, gratuita e integral em um país continental e desigual.
O patologista alemão Rudolf Virchow escreveu no século XIX que a medicina é uma ciência social e a política nada mais é do que medicina em larga escala. O SUS é exatamente isso: medicina em escala continental. Hoje ele realiza bilhões de atendimentos por ano, conduz a maior rede pública de transplantes do planeta, distribuí remédios gratuitamente e vacina milhões de pessoas. Tudo sem cobrança direta ao paciente.
É difícil exagerar o tamanho desse feito. Compare com os Estados Unidos, trabalhei lá por 2 anos (em ponte aérea entre NY, Barcelona e RJ). E lá, adoecer pode significar endividar-se. Mesmo emergências podem gerar contas de milhares de dólares. Seguro de saúde não é detalhe: é condição de sobrevivência financeira.
Mas os EUA não são exceção. Na Suíça, o seguro é obrigatório e caro. Na Alemanha, as contribuições são compulsórias e vinculadas à renda. Até o admirado National Health Service do Reino Unido cobra alguns serviços e enfrenta pressões crescentes. Em boa parte do mundo desenvolvido, a saúde universal existe, mas não é totalmente gratuita no ponto de atendimento como no Brasil.
O SUS é, nesse sentido, uma anomalia generosa. E aqui surge o paradoxo brasileiro. O SUS é gigantesco, universal e gratuito. Mas é cronicamente subfinanciado.
O Brasil gasta proporcionalmente menos recursos públicos em saúde do que muitos países com sistemas universais menores. O resultado aparece nas filas, na demora por exames, na dificuldade de acesso em regiões pobres. Seria fácil concluir que o sistema falhou. Mas essa conclusão ignora o fator mais importante: as pessoas que o mantêm vivo.
Médicos, enfermeiros, técnicos e agentes comunitários sustentam diariamente um dos maiores sistemas de saúde do mundo sob escassez permanente. Atul Gawande (cirurgião, escritor e pesquisador norte-americano conhecido mundialmente por discutir qualidade, segurança e humanização da medicina), costuma lembrar que sistemas de saúde são, antes de tudo, redes humanas. Protocolos importam. Estruturas importam. Mas são pessoas que fazem a medicina acontecer.
No SUS, isso é visível todos os dias: plantões superlotados, improviso criativo, dedicação silenciosa. Heróis invisíveis. O sistema não funciona apesar deles. O sistema funciona por causa deles.
Pesquisas mostram que muitos brasileiros avaliam mal a qualidade e o acesso ao SUS. E a crítica não é injusta: quem espera meses por consulta ou exame sente a dor real do subfinanciamento. Mas aqui está o erro de diagnóstico coletivo: Confunde-se o problema do investimento com o problema do modelo. O SUS não é a causa da precariedade. Ele é a barreira que impede que a precariedade seja ainda maior. Sem ele, milhões simplesmente ficariam sem atendimento.
O SUS é uma das maiores conquistas sociais da história brasileira. Um projeto que afirma que a vida humana não pode depender da renda. E, paradoxalmente, é um sistema que precisa provar sua importância todos os dias.
Talvez porque milagres cotidianos se tornem invisíveis.
O maior risco não é o SUS falhar. O maior risco é o país esquecer o que ele representa e parar de financiá-lo como deveria. Porque quando um país decide que ninguém será abandonado ao adoecer, ele não está apenas criando um sistema de saúde. Está definindo quem merece viver. O SUS PRECISA DE MAIS RECURSOS E DE MAIS COMPROMISSO POR PARTE DE QUEM ORGANIZA O ORÇAMENTO PÚBLICO.
E, eu não poderia terminar este artigo sem agradecer aos profissionais que nos atenderam nesta pequena e nervosa jornada. Em nome da minha família agradeço a todos sem exceção: de porteiros a diretores administrativos, passando por atendentes, técnicos, enfermeiros, estudantes de medicina e médicos. Com certeza vou deixar de citar alguém, mas preciso dizer “muito obrigado”, com a licença dos meus leitores, a: Dra. Cynara Caldeira, Dr. Gilson Bentes, Dr. Rafael Azevedo, Dr. Roberto Lima, Dra. Lorena Loureiro, Dra. Isabela Santa Rosa, Dra. Ana Carolina, Dr. Henri Bromberg. Dra. Ana Paula Diefenbach, Dr. Robson Amorim, Dr. Wesley, Dr. Lucivan, Enfa. Rose, Enfa. Priscila Lima, Dra. Conceição Crozara e Dr. Plínio Cavalcante.
Infelizmente não anotei o nome de uma enfermeira que falou em inglês com o Messias e o deixou muito feliz pelo carinho. Nem de uma senhora da limpeza muito simpática e atenciosa com ele. Minha gratidão ainda ao Superintendente Regional do Ministério da Saúde, Henrique Medeiros e aos meus amigos Délcio Santos, Júlio Pinheiro e Dra, Mônica Melo, pelos conselhos e atenção. Obrigado aos amigos e familiares pelo apoio e orações. Nossa gratidão a todos!
Finalmente concluo com uma frase que ouvi do Dr. Plínio Cavalcante: “O SUS é nosso. É dos brasileiros!”. Sim, é verdade. E pode faltar recursos (que às vezes vão para pura mordomia de poderosos), pode faltar equipamentos e materiais, o teto pode estar caindo, o piso gasto e a parede pode estar descascando. Mas sobra por parte dos profissionais o sacrifício pessoal, o carinho, a competência e o compromisso com o “salvar vidas”. Gratidão! Gratidão Gratidão!
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Este post tem 2 comentários
Warly, você acabou de publicar um dos textos mais honestos e necessários que li nos últimos tempos — e a força dele vem exatamente de onde você menos esperava que viesse: do seu silêncio histórico quebrado na hora certa.
Você que sempre foi “Low Profile”, como você mesmo confessou sem cerimônia, escolheu expor uma experiência íntima e de risco máximo — a saúde do seu filho — não por vaidade, não por desabafo, mas por um senso de dever que poucos jornalistas ainda praticam: fazer justiça a quem merece e não recebe. Isso não é emoção. É postura.
O que me impressiona na sua narrativa é a precisão clínica com que você conduziu a jornada. Cada etapa documentada — da oftalmologista ao neurocirurgião, do diagnóstico de hidrocefalia obstrutiva à endoscopia cerebral bem-sucedida no HUGV — revela um pai que não entrou em pânico, que fez as perguntas certas, que buscou segunda e terceira opinião. E que, ao final, teve a humildade e a grandeza de nomear cada um dos profissionais que tocaram na vida do Messias. Porteiros. Enfermeiras.
Técnicos. A senhora da limpeza que você não soube o nome mas não esqueceu a presença. Isso é jornalismo vivido, não apenas escrito.
A sua citação de Rudolf Virchow — “a medicina é uma ciência social e a política nada mais é do que medicina em larga escala” — merece ser sublinhada. Virchow, médico e político prussiano do século XIX, foi um dos primeiros a afirmar que as doenças são produto das condições sociais, não apenas biológicas. Você usou essa citação com precisão cirúrgica: o SUS é exatamente essa aposta — a de que a condição social não pode determinar quem merece sobreviver.
Sua comparação com os Estados Unidos, onde você trabalhou, não é retórica. É testemunhal. E a conclusão que você chega — que o SUS não é a causa da precariedade, mas a barreira que impede que ela seja ainda maior — é a frase que deveria estar em cartaz em todo Ministério da Fazenda na hora de montar o orçamento federal.
Que o Messias se recupere bem, Warly. E que este texto circule mais do que qualquer estatística do Ministério da Saúde. Porque o que você fez aqui foi transformar gratidão em argumento político. E isso, meu amigo, é o melhor uso que um jornalista pode fazer da própria vida.
Que texto necessário!
Parabéns!!! Texto muito bem explicado e de uma abordagem muitíssimo importante.