Faço parte da última geração que cresceu sem internet e redes sociais. Nossa fonte de informação eram nossos pais, a escola, os cursinhos (fiz datilografia – curso para aprender a usar uma máquina de escrever), o Rádio e a TV, com 5 canais: globo, sbt, bandeirantes, manchete e cultura. O básico para ser bem informado era saber horários: hora de entrar e sair da escola, da missa de domingo, pegar o ônibus, da sessão de cinema… Brincávamos na rua o tempo todo: barra bandeira, queimada, macaca, estátua, esconde-esconde e futebol, pés descalços, onde houvesse espaço e com que número de jogadores fosse, não importando um joelho ralado ou unha arrancada. Merthiolate resolvia (Merthiolate é um remédio antisséptico tópico, famoso no Brasil, cuja fórmula antiga a base de mercúrio e alcóol causava ardência intensa em pequenos ferimentos) rs.
Manchete do jornal que vendia? Brasil ganhou a Copa do Mundo de Futebol; o que vai funcionar no feriado da Semana Santa; quando será a excursão da escola ao INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia… Ou seja, informação importante era aquela que afetava ou mudava nossa rotina. Muito pouco de economia, política ou relações internacionais. Afinal, só sabíamos que existiam EUA, China e Japão por causa dos mapas das aulas de geografia.
Foram os meios de comunicação que transformaram o mundo numa “aldeia global”, onde hoje sabemos quase que instantaneamente o que acontece em qualquer parte do planeta. O filósofo Marshall McLuhan, nos anos 60 do século passado foi quem formulou a ideia da aldeia global, um mundo onde todos estariam interligados por uma cultura unificada por meio da tecnologia. Ele também enfatizou que o “meio é a mensagem”, prevendo que os donos dos meios de comunicação escolheriam o que seria importante ou não com informação. Até aqui o conceito básico de comunicação de massa era até simples: emissor + mensagem + receptor = comunicação. Hoje com a internet e um celular na mão cada indivíduo se tornou também um emissor de conteúdo, com audiência própria, seus receptores em suas bolhas de comunicação e interesses: afetivos, de estudo, ideológicos, financeiros etc.
Assim chegamos num ponto em que nunca tivemos tanto acesso à informação. E nunca estivemos tão confusos.
O sonho iluminista de que mais conhecimento nos tornaria mais livres se dissolveu na enxurrada diária de dados, opiniões, imagens, escândalos, manchetes e teorias conspiratórias. Vivemos na era da superinformação, mas também na era da superficialidade radical. Byung-Chul Han, em No Enxame e A Sociedade da Transparência, é direto:
“A superabundância de informação não gera verdade, mas ruído.”
Quanto mais informação circula, menos sentido ela produz. A avalanche informacional não esclarece, entorpece. Pensar exige silêncio, tempo e profundidade. O feed exige pressa, reação e superficialidade. São lógicas incompatíveis. Hannah Arendt, em Entre o Passado e o Futuro, já alertava que a crise moderna é, antes de tudo, uma crise da capacidade de julgar. Quando somos bombardeados por versões conflitantes da realidade, perdemos a habilidade de distinguir fato, opinião, propaganda e manipulação. Nesse vácuo cognitivo, as fake news florescem como ervas daninhas no terreno da confusão.
George Orwell antecipou esse colapso mental em 1984, ao formular o conceito de duplipensar: a capacidade de sustentar simultaneamente ideias contraditórias sem perceber o conflito. Hoje, vemos isso diariamente quando pessoas defendem discursos incoerentes, dados falsos e narrativas absurdas — não por ignorância, mas por lealdade ideológica. A verdade deixou de ser critério; o pertencimento virou bússola.
Michel Foucault, em Microfísica do Poder, ensina que não existe verdade fora das relações de poder. Toda sociedade produz seus próprios “regimes de verdade”. Na era digital, esses regimes não são controlados apenas por governos, mas por plataformas, algoritmos e bolhas informacionais. Não escolhemos livremente o que consumimos: somos conduzidos por arquiteturas invisíveis que modulam emoções, crenças e indignações.
O feed não é neutro. Ele é uma engenharia política da atenção.
Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, descreve com precisão o sujeito contemporâneo: hiperativo, hiperconectado, hiperestimulado — e profundamente esgotado. Nunca fomos tão produtivos, tão informados e tão mentalmente exaustos. O excesso de estímulos destrói a concentração, fragmenta o pensamento e gera ansiedade crônica. A mente já não habita ideias; apenas desliza por elas.
Um lado tenebroso dessa realidade é que os “encontros” estão deixando de existir para dar atenção um ao outro. Virou cena comum você ver num restaurante aquele casal, sentados um na frente do outro, que mal se falam. Ambos concentrados em seus aparelhos de celular.
Nesse ambiente, fake news não triunfam porque são melhores que a verdade, mas porque são mais emocionais, mais simples e mais rápidas. A verdade exige tempo, checagem, paciência e reflexão. A mentira exige apenas um clique. Immanuel Kant, em Resposta à Pergunta: O que é o Esclarecimento?, definiu a maturidade intelectual como a coragem de pensar por conta própria: Sapere aude. Hoje, pensar virou um ato subversivo. Questionar a própria bolha virou heresia. Duvidar da própria convicção virou fraqueza.
Nietzsche, em Além do Bem e do Mal, foi ainda mais cruel:
“As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as próprias mentiras.”
Quem está absolutamente certo não busca compreender. Busca vencer.
Heidegger, em Serenidade, propõe uma atitude radicalmente atual: dizer “sim” e “não” à tecnologia. Usá-la, sem ser usado por ela. Habitar o mundo digital sem permitir que ele colonize completamente nossa atenção, nosso tempo e nossa interioridade.
Manter a sanidade psicológica hoje exige uma ética da informação: aprender a silenciar ruídos, reduzir estímulos, desacelerar, selecionar fontes, cultivar o pensamento lento e profundo. Não se trata de desconectar do mundo, mas de reconquistar a própria mente.
Talvez o maior perigo da era digital não seja sermos enganados. Talvez seja algo pior: deixarmos de pensar. Porque quando tudo vira conteúdo, quando tudo vira opinião, quando tudo vira disputa, a verdade deixa de importar e o pensamento se torna dispensável. E uma sociedade que abandona o pensamento não caminha para o futuro. Ela apenas desliza, sonâmbula, para o abismo.
E você? Como tem lidado com as informações que consome todos os dias? Você verifica a veracidade da fonte? Ou está entre aqueles que estão terceirizando a sua opinião? Já pensou nisso?
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Este post tem 5 comentários
Eu também cresci com a geração sem internet e agora transito no meio virtual com muita cautela. Não porque tenha medo da tecnologia da informação e da revolução comunicacional, mas porque a minha paz mental, os meus valores espirituais e principalmente a minha produtividade estavam sendo dominadas com tanta informação e também muito mais desinformação. Seu artigo vem muito apropriado. E gostaria adicionar duas mensagens da psiquiatra Marian Rojas Estapé:
“Compreenda o seu cérebro, gira as suas emoções, melhore a sua vida.”
E nesse mesmo sentido:
“Não há nada que cure e proteja tanto quanto o amor. E isto é medicina, não pseudociência.”
Um abraço!
Warly, gostei muito do texto — denso, corajoso e necessário.
Você não escreveu sobre tecnologia. Escreveu sobre a erosão silenciosa da capacidade humana de pensar. E fez isso com uma arquitetura filosófica invejável: de McLuhan a Nietzsche, de Arendt a Heidegger, cada referência no lugar certo, a serviço do argumento, nunca como enfeite. O trecho que me atravessou: “a verdade deixou de ser critério; o pertencimento virou bússola.” Isso resume uma era inteira em onze palavras.
O que você diagnostica não é ignorância — é rendição confortável. E isso é muito mais grave.
E fico aqui checando meus dados e aprendendo.
Leia o artigo completo. Vale cada linha. →
Muito crítico, estou tentando não ser escrava da tecnologia.
Irretocável!
Da bucólica informação, necessária ao primordial e indispensável, à uma profusão de dados muitas vezes incompreendidos, permitindo a escravização pela distorção dos fatos.
Consumir, de maneira seletiva ou não, mas concluir com critério de fontes confiáveis, representa assertividade no maravilhoso exercício do pensar.
Parabéns ao articulista!
Parabéns pelo texto.
Desculpe o pertencimento. Mas, quem conhece Arendr está salvo.