MÁSCARAS NO CARNAVAL OU NO ANO TODO?

O primeiro baile de carnaval de que me lembro foi na casa de um vizinho rico da rua onde morávamos, o Sr. Nestor. Devia ter sete ou oito anos e a criançada toda foi convidada. Eu não tinha fantasia e a única coisa que conseguimos comprar foi uma máscara de palhaço, de papelão. Esperei essa festa com ansiedade. Quem costurou, ajustou e combinou minha roupa foi minha “personal stylist”, mamãe Marilene, (rs). Vestimenta simples, mas carregada de dignidade, fruto de trabalho e amor… Cheguei ao baile cheio de curiosidade e inocência. Queria provar a pipoca e o refrigerante. Havia muita serpentina, confetes e as marchinhas de carnaval politicamente incorretas do tipo: “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é? Será que é? Bi…!!!!!”

            Aquele primeiro baile me marcou, mas não me tornei um “folião”. Cresci sem gostar de carnaval e sem entender o por quê da comemoração. Sabia que era feriado, que o padre não gostava e que a televisão mostrava mulheres seminuas dançando nas escolas de samba. Mas não via sentido no consumo de tanta bebida alcóolica, fantasias, máscaras e a LIBERDADE de ser e fazer o que se quisesse  como eu pensava na época.

Como profissional fiz várias coberturas de desfiles de escola de samba e informei ao público a “explicação” dos governantes para a festa: é um feriado para celebrar a vida, gera empregos, é bom para o turismo, para a economia e é CULTURA PORQUE CELEBRA A NOSSA ANCESTRALIDADE NEGRA.

Voltei a usar máscara (de verdade, porque as de personalidade usamos-as quase todos os dias) depois de casado num baile a fantasia que fizemos na nossa casa para família e amigos. Me vesti de Fantasma da Ópera, com a máscara igual a do personagem do musical de Andrew Lloyd Weber. Ai sim, me senti poderoso (rs).

E foi esse sentimento de poder que hoje me faz refletir sobre o carnaval e seus simbolismos. Carnaval é Festa Popular ou Engenharia de Dominação?

O Carnaval costuma ser vendido como uma explosão de liberdade. Suspensão das regras. Subversão da ordem. Mas e se essa “liberdade” for parte da própria engrenagem do controle? A pergunta é antiga e incômoda.

O Carnaval não nasce como alienação. Nasce como rito comemorativo. Muito antes dos trios elétricos e sambódromos, antes de Roma, antes do cristianismo, antes do Estado moderno, sociedades agrícolas (Mesopotâmia, Egito etc) já celebravam a fertilidade, a época de colheita, com excesso, vinho, dança, máscaras e inversão de papéis. Na Grécia Antiga, os festivais dionisíacos dissolviam o “eu” em êxtase coletivo. Em Roma, permitiam que escravos “governassem” por alguns dias. As Saturnais romanas eram festas dedicadas a Saturno em que escravos podiam “mandar” nos senhores por alguns dias. Era uma inversão simbólica da hierarquia. Mas apenas simbólica. Assim Roma fez algo decisivo: institucionalizou o caos, colocando-o no calendário. É aqui que o rito vira ferramenta. O historiador cultural encontra um padrão: a ordem permite a desordem, somente para preservá-la. Ou, a elite se apropria da festa popular e a transforma em “cultura”, dizendo que vai preservá-la, financiá-la e incentivá-la. Mas, na verdade, o que acontece é dominação.

            Juvenal (Decimus Junius Juvenalis) foi um poeta satírico romano que viveu entre os séculos I e II d.C. Ele ficou célebre por suas Sátiras, textos ácidos e profundamente críticos à decadência moral, política e cívica de Roma. A famosa expressão “panem et circenses” (“pão e circo”) aparece na Sátira X. Nela, Juvenal denuncia que o povo romano havia abandonado qualquer ambição por participação política, virtude ou liberdade, contentando-se com duas coisas:

            •          pão → subsistência garantida pelo Estado.

            •          circo → espetáculos, jogos, distração e entretenimento de massa.

A crítica é brutal: quando a população é alimentada e entretida, ela não questiona o poder. Essa fórmula não descreve apenas Roma, ela inaugura um modelo histórico de dominação simbólica, no qual o governante não precisa convencer, apenas distrair.

O filósofo russo Mikhail Bakhtin, em A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, descreveu o carnaval medieval como espaço de riso grotesco, inversão e crítica ao poder. Para Bakhtin, o riso carnavalesco era regenerador, uma válvula coletiva contra a rigidez oficial.

            Séculos depois, Michel Foucault, em Vigiar e Punir, mostraria que o poder moderno não reprime simplesmente, ele organiza comportamentos, administra prazeres, distribui permissões. Quatro dias para transgredir. Trezentos e sessenta e um para obedecer. A catarse deixa de ser ruptura e torna-se mecanismo de estabilidade.

E a máscara? Por que eu senti poder ao colocar a do Fantasma da Ópera? A máscara é o símbolo mais perturbador do Carnaval. Ela promete anonimato. Mas também revela estrutura. Nos cultos antigos, mascarar-se era atravessar fronteiras entre o humano e o divino, ordem e caos. Mas, no mundo moderno, a máscara tornou-se rotina.

Em O Mal-Estar na Civilização, Sigmund Freud sugere que a civilização exige repressão dos impulsos. O Carnaval seria o momento controlado da descarga pulsional, um retorno temporário do reprimido. Mas quem controla o tempo da liberação controla o desejo. A máscara suspende a identidade social, porém dentro de um roteiro coletivo. O anonimato não é absoluto: é permitido. E aqui surge uma ironia contemporânea: nas redes sociais, todos usam máscaras simbólicas todos os dias. O Carnaval deixou de ser anual; tornou-se permanente.

Hannah Arendt, em A Condição Humana, distingue ação política verdadeira de mero comportamento coletivo. A ação inaugura algo novo no espaço público. O comportamento apenas reproduz padrões. Pergunta incômoda: o Carnaval ainda é ação ou apenas comportamento massificado?

Em A Sociedade do Espetáculo, Guy Debord afirma que a realidade moderna é mediada por imagens que substituem a experiência direta. A rebeldia vira performance. A crítica vira produto. O Carnaval contemporâneo é indústria, turismo e transmissão global. A subversão é coreografada. A desordem já faz parte do planejamento.

Aviso que aqui a minha provocação se intensifica. O que antes durava quatro dias hoje é contínuo. A lógica carnavalesca migrou para as redes sociais.

Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, argumenta que vivemos sob um regime de desempenho e autoexposição. Não somos reprimidos; somos estimulados a nos exibir. Todos mascarados. Todos performando.Todos acreditando que estão sendo autênticos. A diferença é que agora o desfile nunca termina.

O Carnaval nasceu como rito profundo de renovação. Mas foi progressivamente capturado, administrado e transformado em válvula de escape.

O poder aprendeu algo sofisticado:não é preciso proibir o excesso basta colocá-lo no calendário.

A reflexão que fica não é se o Carnaval é bom ou ruim. A pergunta é outra:

Se a revolta contra as regras sociais tem data marcada, patrocínio oficial e transmissão em alta definição, ainda é revolta? Ou é apenas a máscara perfeita de um sistema que descobriu como incorporar a própria crítica? E, talvez, o pensamento mais inquietante: Quando a festa acaba, quem realmente tira a máscara? E você leitor, leitora, é consciente das máscaras que usa? Pense nisso!

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