“Se você vê estrelas demais
Lembre que o sonho não volta atrás,
Chega perto e diz: ANJO (,,,).”
Todo mundo tem uma ou mais músicas que marcaram sua juventude, um momento especial, uma fase na vida, um amor, uma conexão verdadeira,,, Eu tenho várias, “Anjo” do Roupa Nova é uma delas. A música pra mim sempre foi alimento intelectual para a mente, companhia, aconchego emocional, reflexão profunda, uma forma de expressar o que “não se consegue falar”, poesia em melodia, talento humano transformado em emoções que tocam a alma. E quantos cantores e compositores bons eu ouvia e ouço. Minha atual playlist tem mais de 20 horas de duração, rs. De Ritchie a Roberto Carlos, passando por Legião Urbana, A-Ha, Kid Abelha, Queen, Toquinho, Abba, Scorpions, Bon Jovi, Michael Jackson, Cássia Eller, Raça Negra, Milton Nascimento, Araketu… Sim sempre fui muito eclético. Gosto especialmente das vozes femininas: Annie Lennox, Bonnie Tyler, Whitney Houston, Adele, Dolores O’Riordan (The Cranberries), Enya e Sarah Brightman. E há ainda os louvores a Deus; cada letra linda, inspiradoras, poesias que tocam a alma.
Na Rádio Alvorada FM de Parintins, a discotecária Maria do Carmo me convidou para apresentar um programa às 17h de segunda à sexta, só com músicas clássicas. E sim, o programa foi um sucesso. Os grandes compositores sendo transmitidos no final de tarde para boa parte do interior da Amazônia é um deslumbre de vida, eu pensei. Eu imaginava as lindas paisagens de rios, vida selvagem, floresta e o cotidiano do ribeirinho ao som de obras primas como “As Quatro Estações”, de Vivaldi. Me apeguei tanto ao programa que passava horas na discoteca da Rádio pesquisando e ouvindo as sinfonias, orquestras, músicos extraordinários… Ali encontrei a minha preferida das sétimas artes. Foi lá também que descobri a relação da música com a matemática e com as altas frequências de ressonância vibracional, aquelas que curam o corpo e elevam a alma, como ensina o meu irmão/amigo Prof. Dr. Maestro Gustavo Medina.
Por isso, é com certa tristeza que podemos constatar o quão raso é o que ouvimos em letras e músicas atualmente no Brasil. Não se trata apenas do choque de gosto musical entre gerações. Há uma mudança silenciosa e perigosa acontecendo: o argumento está sendo substituído pelo refrão. Não importa o gênero. Do funk carioca ao sertanejo “sofrência”, passando por nichos da MPB e do pagode, o raso virou regra. Repetição no lugar de construção. Estímulo no lugar de significado.
Mas antes de comparar palavras, vale lembrar o que a música já foi e ainda pode ser. As composições de Wolfgang Amadeus Mozart, Ludwig van Beethoven, Frédéric Chopin e Johann Strauss II não se impõem pela facilidade, mas pela profundidade. Elas exigem escuta, atenção, entrega. Não são feitas para preencher o silêncio, são feitas para transformá-lo. Ali, cada nota carrega tensão, intenção e emoção. Há construção. Há narrativa. Há alma. A música, nesse nível, não é consumo. É experiência.
Agora, compare. De um lado, “Pela Luz dos Olhos Teus”, de Antônio Carlos Jobim e Miúcha:
“Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar…
Ai que bom que é isso, meu Deus,
Que frio que me dá o encontro desse olhar. (…)”
Há sugestão. Há encontro. Há uma construção simbólica. O amor não é exposto, é revelado aos poucos.
Do outro lado, o vocabulário dominante de muitos hits atuais: “Vou te macetar… Eu só quero te macetar… Macetar…”
Sem metáfora. Sem tensão. Sem alma. Não é moralismo. É uma linguagem empobrecida. Vulgaridade “vendida como cultura”.
Arthur Schopenhauer escreveu que “a música é a cópia direta da vontade”. Se ele estiver certo, o que estamos ouvindo em massa não é apenas entretenimento, é um espelho. E o reflexo é raso.
Friedrich Nietzsche advertiu: “Sem música, a vida seria um erro.” Mas talvez hoje caiba o complemento incômodo: com qualquer música, a vida pode se tornar vazia. Muito antes deles, Sócrates, nas reflexões preservadas por Platão, já alertava que a música molda a alma e o caráter. Mude-se a música de uma sociedade, e muda-se a própria sociedade. Não é detalhe. É formação. É controle. Basta ver se os artistas que propagam o “culto à ignorância” são patrocinados pelo governo e pela grande mídia. Afinal quem está entretido com balançar de corpos semi-nus e repete refrão de baixo conteúdo não questiona, não reflete, não pensa.
Hannah Arendt foi direta: “a incapacidade de pensar é mais perigosa do que a maldade”. E pensar exige linguagem, nuance, complexidade… Exatamente o que o consumo raso dissolve. Byung-Chul Han descreve nosso tempo como incapaz de contemplação. Tudo precisa ser rápido, imediato, repetível.
E é aqui que o ciclo se fecha. As redes sociais não criaram esse fenômeno, mas o amplificam até o limite. Elas são o grande eco dessa cultura: onde o que é simples se espalha mais rápido, o que é raso engaja mais, e o que é profundo… cansa.
O algoritmo não premia a reflexão. Premia repetição. No fim, o problema não é o que se canta. É o que isso está fazendo conosco.Porque o raso não apenas diverte. Ele treina.
E então, a pergunta que permanece é mais incômoda do que nunca: você ainda pensa sobre o que consome… ou já só repete o que ouve? E você ainda canta suas músicas preferidas? Aquelas que ajudaram a construir o seu “eu” de hoje?
Compartilhe isso:
- Clique para compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp
- Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
- Clique para compartilhar no X(abre em nova janela) 18+
- Clique para compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
- Clique para enviar um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
- Clique para imprimir(abre em nova janela) Imprimir





Este post tem um comentário
Varly Bentes, meu Brother! Você novamente na pista!
Sabe o que pensei sobre sua coluna de hoje?
Você abriu com o Roupa Nova e fechou com Arendt. Isso já diz tudo sobre o calibre do que você construiu aqui. A playlist que você expôs — de Ritchie a Milton Nascimento, de Whitney Houston a Enya, de Legião Urbana a Scorpions — não foi nostalgia. Foi prova viva de que música pode ser formação, não apenas fundo sonoro.
A experiência na Rádio Alvorada FM de Parintins transmitindo Vivaldi para o interior da Amazônia é uma das imagens mais poderosas que já li numa coluna sua. Eu consigo ver o ribeirinho na beira do rio ouvindo As Quatro Estações. Isso é jornalismo que vira literatura.
Mas você não ficou na saudade. Você fez o corte cirúrgico: colocou Jobim lado a lado com o vocabulário vazio que domina os hits de hoje. Sem moralismo, sem pregação. Apenas o contraste que fala por si. Schopenhauer tinha razão — a música é espelho da vontade. E o que o espelho está mostrando hoje incomoda.
Sua provocação final é a mais difícil de responder: você ainda pensa sobre o que consome, ou já só repete o que ouve? Quem entretido com o raso não questiona, não reflete, não incomoda o poder. Sócrates já sabia disso. Você lembrou ao Brasil.
Texto maduro, necessário, amazônico na raiz e universal no alcance.
Adão Gomes — http://www.nafesta.com.br