Por Ronaldo Derzy Amazonas*
Existem situações na vida normativa do nosso país que são de causar espanto e nojo ao mesmo tempo mormente, para quem como eu, assistiu e atravessou momentos políticos nebulosos que deixaram marcas as quais não se apagam da memória.
Uma das bases de sustentação do sistema político e institucional do país e que volta e meia é arrotado seja por parlamentares, por membros do judiciário ou do executivo, é que os poderes da república são harmônicos e independentes entre si. Alto lá! nem tanto ao mar e nem tanto à terra né?
Onde está a harmonia se os poderes vivem se digladiando e onde, volta e meia, um interfere no funcionamento do outro? Onde mora a tal independência se um dos poderes é quem escolhe e nomeia os componentes de outro poder e um terceiro ainda sabatina para aprovar ou não membros de um terceiro poder? Ou, como crer que sejam independentes se, quem arrecada, guarda e libera a grana para os demais poderes é apenas um deles?
Vocês pensam que o mundo é perto? repete a minha mãezinha D. Lélia do alto dos seus quase 95 anos sempre que alguém da família se mete em dificuldades ou não leva em consideração suas oportunas ponderações e ensinamentos
Pois bem, penso que a nata política, judiciária e da gestão superior do Brasil precisava se abrir aos sábios conselhos da D. Lélia e tomar um chá de bússola para melhor se orientar a fim de levarem o país a um porto seguro porque do jeito que o barco navega, logo logo, nos depararemos com mares revoltos e cheios de incertezas e rochas pela frente.
Como muitos brasileiros, assisto com certa incredulidade e pleno de preocupação essa novela mexicana pra não dizer paraguaia, que é a indicação do novo Procurador Geral da República-PGR, cargo, que em última análise é o único que pode propor e realizar inquéritos, abrir investigação, denunciar políticos, parlamentares e membros da alta cúpula do judiciário e do executivo sendo o guardião e fiscal do cumprimento das leis
Que independência pode-se ao menos aventar se o indicado para a PGR vai ao Presidente da República antes mesmo de ser escolhido, inicia um périplo de beija mão junto aos senadores, dá entrevistas já adiantando posições e posturas sobre temas delicados? Note-se ainda que o cara nem apoio tem por parte dos seus pares posto que escolhido fora de uma lista tríplice ilegal e sequer prevista nas normativas internas da PGR ou sem nenhuma previsibilidade constitucional.
Santa paciência! diria o Robin ao povo brasileiro diante de uma vexatória e novelesca situação como esta da escolha do PGR que, de tão inusitada e ridícula, trará como produto a fragilidade de uma instituição que precisa demonstrar fortaleza, coesão, independência e justeza ante uma nação cujo passado mais recente foi devastado pela corrupção e onde o horizonte da vida nacional está cheio de incertezas e mergulhado em fragilidades políticas, econômicas e sociais.
Não canso de repetir: o problema do país não é a sua gente, seu tamanho, suas diferenças sociais, seu corpo empresarial e os produtores de riquezas; o problema do Brasil são os maus políticos, os péssimos gestores e um sistema parlamentar e judiciário com membros mal acostumados e cheios de mordomias, sem freios e carcomidos pelo desmando e pela corrupção que não acaba nem fica pouco.
Tomem tento senhores
Té logo!
*O autor é farmacêutico bioquímico e diretor-presidente da Fundação Hospital Alfredo da Matta
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