Violência contra mulheres é realidade nas Universidades públicas do Amazonas

Share on whatsapp
Share on facebook
Share on twitter
Share on email
Share on print

“Eu estava usando uma saia um pouco acima do joelho e fui altamente assediada”. “Eu estava passando pelo corredor e o professor achou que eu fosse assaltante”. “Sofri agressão por ser chefe mulher e o servidor não aceitar”. “Mulher bonita não tem competência, é promovida por causa da sua beleza”. “Por ser indígena tive minha identidade questionada e minha inteligência também”. “Busquei a coordenação do curso, disseram que o profissional tinha esse histórico [de assédio], porém era um grande profissional”. “A Universidade não fez nada a respeito”.

Estes foram alguns dos depoimentos de mulheres que participaram da pesquisa “Violência contra as mulheres na universidade: uma análise nas instituições de ensino superior no Amazonas”, que contou com a participação de 1.166 pessoas das comunidades acadêmicas das instituições públicas de ensino superior do estado: Instituto Federal do Amazonas (Ifam), Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e a Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

O estudo envolveu uma equipe multidisciplinar de pesquisadore(a)s, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e coordenado pela professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Milena Barroso, tendo como público-alvo estudantes, técnico(a)s, professore(a)s e funcionário(a)s terceirizado(a)s que estudam e trabalham nas principais instituições de ensino superior público do Amazonas.

Dados e metodologia

Participaram da pesquisa 1.166 pessoas da Ufam, Ifam e UEA, sendo 65% mulheres, 32% homens e um percentual de quase 2% que se identificaram como de outro gênero. Desse universo, 38% afirmam que foram vítimas de algum tipo de violência no espaço universitário nos últimos cinco anos. Outros 83% avaliam que é provável a ocorrência de algum tipo de violência na universidade durante os próximos seis meses. Os resultados apontam também que mulheres e homens são vítimas de violência, no entanto, sua prática é predominantemente executada por homens, em um percentual que chega a mais de 85%.

Os registros são variados, vão desde assédio moral e sexual, estupro a discriminação social, racismo, xenofobia, homofobia, lesbofobia e transfobia. A coleta de dados foi realizada em 2020 em etapas inter-relacionadas: visitas in loco, entrevistas com representantes de instituições de ensino superior e coleta de dados a partir de plataforma digital com 90% de confiança nos dados obtidos. A metodologia contou também com a realização de um webnário sobre o tema.

Violência Institucional

Um dos principais resultados apontados pela pesquisa diz respeito à violência institucional sofrida pelas mulheres no espaço acadêmico. Segundo as pesquisadoras/es as relações hierárquicas e o funcionamento sexista das instituições naturalizam vários tipos de violência, o que, consequentemente, dificulta sua apreensão por parte das vítimas.

A naturalização da violência também é um problema apontado pelo estudo. A sala de aula é considerada, pela maioria do(a)s participantes da pesquisa, como o local mais violento para mulheres e homens na universidade. Os resultados apontam que grande parte das vítimas não oficializa denúncia e os motivos estão relacionados ao medo, à vergonha e às limitações dos canais institucionais de comunicação.

“As violências são múltiplas na universidade, desde as mais diretas até outras que, de tão naturalizadas, se confundem com a própria instituição. Nesse sentido, nossa pesquisa é uma contribuição para as universidades pensarem em políticas de segurança e proteção às mulheres e à comunidade acadêmica no geral. A sensação de insegurança e a violência são alarmantes e se colocam como impeditivos importantes para o sucesso nos projetos e carreiras acadêmicas e profissionais”, explica a coordenadora da pesquisa, professora Milena Barroso.

Cartilha e Livro

Em alusão ao Dia Internacional das Mulheres, 8 de março, e ao mês de março, que concentra uma série de ações de resistência do movimento feminista e de mulheres em todo o Brasil, a pesquisa será lançada em duas etapas: no dia 8 de março, serão divulgados os principais resultados; e, na última semana deste mês, será divulgada uma cartilha com os dados que sintetizam as informações da pesquisa. A ideia é provocar a discussão mais ampla sobre a violência contra as mulheres nos espaços universitários, já que o Amazonas reflete uma realidade nacional.

A iniciativa conta com o apoio da Associação dos Docentes da Ufam (Adua), que disponibilizará a versão digital do documento para download em seu site e distribuição de exemplares impressos para docentes da Ufam. Além disso, será publicado um livro com a participação de diversas autoras que estudam a violência contra as mulheres e se debruçaram sobre o sexismo no ambiente acadêmico. O lançamento do livro acontece ainda no primeiro semestre de 2021.

Qual Sua Opinião? Comente:

Deixe uma resposta