O que fizemos de nós?

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Fazia muito tempo que eu não me dava o prazer de ver uma noite de luar. Confesso que nem me lembrava mais da sua beleza e do encantamento que ela nos proporciona. Na última noite de lua cheia, como fazia muito calor, resolvi chamar a minha querida esposa para nos refrescar na área externa do nosso apartamento e namorarmos um pouco como nos velhos tempos, pois lá corria um vento agradável advindo da bacia do Rio Solimões. Tal foi a minha surpresa quando me deparei com o espetáculo da lua cheia em todo o seu esplendor.

Confesso que fiquei perplexo diante da beleza daquele espetáculo monumental esculpido pelas mãos de Deus. Foi inevitável deixar de lembrar trechos do poema de Catullo da Paixão Cearense que eu gostava de recitá-los durante as minhas serestas, enquanto o violão plangente fazia o fundo musical solando a linda melodia, “ Se ela um dia perguntar por mim”. Assim dizia o poeta :

“Meu violão! Se te escuto as harmonias, na atenção do silêncio, em noite bela numa eclosão de lágrimas benditas, me levanto do leito… abro a janela.

Às ternas pulsações das fibras tuas, que Ela outrora auscultou, Violão magoado, vejo erguer-se o cadáver do Pretérito, pelas mãos da Saudade embalsamado.

Deus acende no Azul a nívea lua, o lustre de cristal dos trovadores, que pende lá do céu apainelado pelos pincéis dos místicos pintores. Que ela venha à janela, seminua, para ver, nesta noite cor de prata, como o poeta se assemelha ao Cristo carregando uma cruz, em serenata.”

Feitas essas reflexões , cheguei a conclusão do quanto tempo eu havia perdido à frente da TV apenas para escutar noticiários recheados de manchetes espalhafatosas contando as misérias e desgraças que haviam acontecido ao longo dos dias e ouvir notícias caluniosas. Todas as emoções vivenciadas naquele curto espaço de tempo me levaram a fazer outras reflexões:

Lembrei-me do tempo em que todos éramos felizes e que sorríamos por qualquer motivo, pois a nossa simplicidade conseguia enxergar nas coisas aparentemente singelas, a beleza ímpar que existe no sorriso de uma criança, no por do sol, numa noite de lua cheia, num grande amor e na paz de um domingo.

O que será que fizemos para apagar o riso? Por que será que as cores ficaram mais pálidas? O que fizemos contra nós mesmos para esquecermos de caminhar na chuva e espiar ninhos de passarinhos? Morreu a fantasia, morreu a criança que vivia dentro de nós?  Deixamos tudo isso acontecer e nem nos apercebemos. Gastamos nosso tempo na televisão, no telefone, na Internet e deixamos para trás a nossa alma, o sentimento de amor familiar, as horas de papo com os amigos, o passeio de mãos dadas com a namorada e o cafezinho no boteco…

Queria te convidar a sonhar. Não, não é para mais um sonho do que se vai comprar, adquirir e se entupir. Sonhar infantilmente, por nos olhos a candura pueril, os lábios quase falando a ânsia da alegria, navegar na fantasia!

Vamos correr sem medo e, em todo o desapego, igual correr na estrada com poeira sem pensar na sujeira, brincar com o sentimento, ser novamente num momento apenas criança , marota, arteira e eterna. Pois não há inverno para quem corre no sol, não há inferno para quem tem nos olhos o brilho de um farol. Nunca haverá paz em qualquer rincão do universo se dentro de nós, frutos da criação, ela não habitar antes.

*O autor é empresário aposentado ([email protected])

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