O defunto e os caboclos

No final da década de cinquenta, não sei precisar se o ano era 58 ou 59, lá para as bandas de Itapipoca no meu Ceará, tinha uns coronéis de barranco, ricos, poderosos e valentes tal qual um gato dentro de um saco. Como desfrutavam de grande prestígio político junto ao governador Parcifal Barroso, casavam e batizavam quem queriam e quando entendiam, pois naquelas bandas , eram eles os senhores absolutos, os mandachuvas das paragens. É importante falar desses detalhes, para que o leitor amigo possa entender melhor as peculiaridades da região e de seus costumes.

Dito isso, faço o que recomendava o prefeito Odorico Paraguaçu, saio dos considerando e entro nos finalmente, dando-lhes a conhecer o causo que me foi contado em tempos idos, com a fidelidade permitida pela minha memória, evitando acrescentar um ponto para aumentar o conto. Pois bem, na cidade de Itapipoca, morreu um desses coronéis de barranco, o coronel Vitorino. Como se diz naquela região, “bateu as botas”. Diante do infausto acontecido, a família mandou o feitor da fazenda matar um boi e um porco para alimentar a cabroeira e os amigos que viriam para o velório do falecido, e providenciar também, cachaça suficiente para beberem o morto.

Enquanto arrumavam os preparativos para o bota fora do infeliz coroné, alguém lembrou a viúva da necessidade de mandar comprar o caixão para o morto em Fortaleza, já que ali na região não tinha funerária, pois é costume interiorano transportar os mortos em uma rede amarrada em um pau conduzido por dois peões e enterrar o falecido com rede e tudo. Estava a viúva e suas comadres discutindo outras providências que deveriam ser tomadas
para que o coroné tivesse um enterro paidégua, quando interrompeu esbaforido porta a dentro o Zé motorista da fazenda. O cabra que era mais confiado do que macaco no meio da roda em feira do interior e como já tinha tomado umas dez na bodega do seu Antonio, passou o braço em torno da cintura da viúva , jogou o bafo de onça da cara da infeliz, e foi logo dizendo: “ madama, estou a suas orde, vou já pegar o Toinho Pé de Pato que é meu ajudante para ir comigo a Fortaleza comprar o caixão do patrão”.

A viúva já toda arrepiada com o abraço do cabra, pois o coroné já não dava no coro há muito tempo, desvencilhou-se dele e foi até acamarinha do casal pegar uma caixa de sapatos de onde tirou uma maçaroca de cédulas que passou para o Zé , e lhe recomendou: “Vá no Informador Popular que é a funerária mais chic da capital e compre o melhor caixão que tiver, Vitorino merece! No retorno da vigem, o motorista resolveu dá uma parada em
Caucaia para fazer um lanche e tirar água do joelho. O ajudante que se encontrava na carroceria do caminhão pastorando o caixão para evitar que os solavancos provocados pela estrada de terra pudessem danificá-lo, como se encontrava numa ressaca miserável, daquelas que você fica com gosto de trombone velho na boca, e como havia começado a cair uma chuvinha fina, aquela que o nordestino chama de “chuva do caju” ou “do casamento da raposa”, entrou no caixão baixou as tampas e adormeceu.

O motorista terminou o lanche e quando se preparava para sair, foi abordado por meia dúzia de caboclos que queriam saber se ele podia lhes dar uma carona até a entrada da estrada que vai para Paracuru, pois haviam escutado sua conversa com o dono do bar e
ouvido dizer que estava indo para Itapipoca. O motorista mandou os caboclos subirem no caminhão e lhes avisou que estava transportando um caixão, mas esqueceu de falar do ajudante.

O caminhão prosseguiu a viagem e os caboclos alegres e felizes com a carona, começaram a conversar sobre as coisas do campo e iam aumentando a intensidade de suas vozes à medida que a discussão se tornava mais acalorada. O solavanco da carroceria e as vozes
dos caboclos acordaram o ajudante que, abriu as tampas do caixão e sentado no mesmo, indagou: “A chuva já passou”? A merda estava feita, não ficou um só caboclo na carroceria.

A desgraça estava consumada. Tiveram que juntar os feridos e voltarem para Fortaleza, pois todos os caronas estavam bastante machucados. Um caboclo que estava bebericando num botequim em Itapipoca, ao saber da notícia, fez o seguinte comentário para o amigo: “Égua macho véi, esse coroné era tão ruim que até adespois de morto ainda fez má aos cabocos”. Como mascava fumo de rolo, deu uma cusparada pro lado, fez o sinal da cruz e disse:” Vixe homi, vôte capiroto, qui isprito marvado e ruin! Ô Xente!

Dauro F. Braga (daurofbraga@hotmail.com)

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