Narcotráfico patrocina crimes ambientais e está presente nas altas esferas corrompendo autoridades, dizem especialistas reunidos em Manaus

“O narcotráfico hoje é o grande investidor dos crimes ambientais na Amazônia”, afirmou o titular da Diretoria para a Amazônia e Meio Ambiente da Polícia Federal, Humberto Freire de Barros. A declaração foi feita, nesta quinta-feira (23/5), durante a abertura da segunda edição do Seminário de Segurança Inovadora, promovido pela Comissão de Segurança Pública do Poder Legislativo Estadual, presidida pelo deputado Comandante Dan (Podemos), com apoio da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam). Os especialistas dizem ainda que o crime organizado está incrustrado nas instituições, corrompendo vários agentes públicos.

“Segurança Pública e proteção socioambiental na Amazônia Legal: os grandes desafios” foi o tema da palestra do delegado, que abriu a programação do evento. Questões estratégicas sobre a segurança na Amazônia Legal, como garimpo ilegal e terra indígena, foram abordadas durante as discussões.

“Hoje, o grande incentivador e financiador da criminalidade ambiental é o narcotráfico, que não trabalha apenas com facções criminosas nacionais. Estamos enfrentando falanges transnacionais”, declarou o diretor da PF.

Ele argumentou, ainda, que a falta de fiscalização e implementação de políticas nacionais para o meio ambiente e de combate ao crime organizado, incentivaram o chamado narconegócio.

O palestrante também destacou que a extração mineral, exploração madeireira e pesca ilegais são financiados pelo dinheiro do tráfico. Segundo ele, o contexto atual, vivido na Amazônia, mostra que os povos originários e a população nativa e ribeirinha da Amazônia são diretamente impactados pelo crime organizado, que diversifica seus negócios e lava dinheiro nos crimes ambientais.

“Hoje falamos do ouro de sangue, porque a extração desse ouro custa a vida dos povos indígenas”, afirmou o palestrante.

O delegado informou que a instituição está focando na descapitalização das organizações criminosas e alcançando não só quem pratica o crime diretamente, no local do crime, mas toda a superestrutura que financia e dá também infraestrutura aos crimes ambientais.

“Muitas vezes, a aeronave que leva o ouro extraído ilegalmente traz a droga para o território nacional e transporta jovens, sob o argumento de se tornarem cozinheiras em garimpos, o que mascara uma rede de exploração e escravidão sexual”, disse Humberto.

Novas estratégias de combate ao crime

O diretor de Amazônia e Meio Ambiente da Federal citou a criação do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, que será a principal estratégia de combate, tanto ao narcotráfico, quanto aos narconegócios ambientais.

O Centro terá sede em Manaus e será formado pelos nove Estados da Amazônia e pelos países da Amazônia internacional, com instalação prevista para acontecer ainda em 2024.

Comandante Dan apontou como estratégia de suporte ao Centro de Cooperação Internacional, a criação, no Amazonas, de um Centro Integrado de Operações de Fronteira (CIOF), que deve ter sede em Tabatinga (distante a 1.114 quilômetros de Manaus), onde acontece a entrada da droga no país.

O deputado Dan lembrou que a conquista foi um pedido de seu gabinete ao secretário nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça.

“O secretário Mário Sarrubbo percebeu a urgência que os cenários demandam e ordenou à equipe técnica do Ministério, que inicie as tratativas, que terão a participação da Comissão de Segurança Pública da Aleam”, informou o parlamentar, que além de presidente da Comissão de Segurança da Aleam, é o promotor do evento,

Reaparelhamento, infraestrutura, novas unidades e incremento de efetivo serão os eixos estruturantes da ação da Polícia Federal.

Vem de cima

A palestra “Urbanismo Social e Segurança Pública: Limites e Possibilidades” do professor Ricardo Brisolla Balestreri, educador, consultor empresarial e governamental, durante o segundo Seminário de Segurança Inovadora apresentou, entre outros pontos, as experiências de renovação de uso do solo urbano, como promotoras de sensação de segurança e da ordem pública.

O evento que começou nesta quinta-feira (23/5), no auditório Belarmino Lins, na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), é promovido pela Comissão de Segurança Pública do Poder Legislativo Estadual, presidida pelo deputado Comandante Dan (Podemos), com apoio da Mesa Diretora da Aleam.

Balestreri, abordou, como exemplo bem-sucedido de segurança inovadora, a experiência dos projetos “Territórios pela paz” e “Usina de Paz”, implantados por ele no Estado do Pará. O foco, segundo ele, é a ocupação do espaço urbano popular com serviços públicos e acesso da população às atividades de promoção de cidadania, educação, saúde e empregabilidade.

“São mais de 80 serviços gratuitos, disponibilizados pelos órgãos e entidades parceiras do Estado, como espaços para atividades esportivas, salas de audiovisual e inclusão digital. Além de atendimento médico e odontológico, consultoria jurídica, emissão de documentos, ações de segurança, capacitação técnica e profissionalizante, espaço multiuso para feiras, eventos e encontros da comunidade. Há espaços para cursos livres e de dança, teatro, robótica, artes marciais, musicalização e biblioteca”, afirmou o palestrante.

Para o deputado Comandante Dan (Podemos), promotor do evento, o professor é uma das grandes autoridades intelectuais da segurança pública no Brasil.

“Fui conhecer uma Usina de Paz e me enchi de esperanças de poder um dia, ver um projeto tão efetivo, sendo realizado em Manaus e no interior do Amazonas”, disse.

A ausência do Estado em bairros periféricos e populares (algo corriqueiro nas cidades de médio e grande porte do país), desenvolvendo políticas públicas inclusivas e oportunidades, são para o professor Balestreri, um dos principais fatores do crescimento do crime organizado.

“O crime praticado na favela não é no atacado, é no varejo. Os líderes das organizações criminosas não estão na favela. A dinâmica do crime não vem de baixo para cima, vem de cima pra baixo”, argumentou.

Para ele, não é na favela que se resolve o crime organizado, o que não quer dizer que não se deva combater o crime no varejo. O palestrante avaliou que matar bandido não resolve nada, essa visão, além de mal articulada, é ingênua.

“O que resolve é desestruturar as organizações criminosas. Não há crime organizado que sobreviva sem a corrupção de autoridades. Cidades mais equânimes com seus cidadãos, com os espaços públicos bem cuidados e honestamente administrados são a receita para a segurança e a ordem pública”, finalizou.

O Seminário prossegue até amanhã no auditório Belarmino Lins, da Aleam. A participação é gratuita.

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