Conflito civilizacional

Por Eron Bezerra*

Uma análise, mesmo que superficial, sobre as “ideias” e posicionamentos dos principais articuladores do novo governo liderado por Bolsonaro nos leva a concluir que estamos diante de um conflito civilizacional.

E para tentar entender porque ideias esdrúxulas, desprovidas de qualquer racionalidade, e eivadas de ódio e preconceito conseguiram se tornar vitoriosas – mesmo tendo presente que elas não foram endossadas pela maioria da população brasileira – é preciso compreender que talvez a causa determinante esteja nesse conflito civilizacional.

A população do Brasil é da ordem de 210 milhões de brasileiros. Desse contingente, 147.305.155 de eleitores estavam aptos a votar nas eleições de 2018. O resultado revela um país tripartido entre Bolsonaro, Haddad e um contingente hostil a ambos.

Desse eleitorado, em termo aproximado, Bolsonaro obteve 57 milhões de votos (39%); Haddad alcançou 47 milhões de adeptos (32%); e algo como 43 milhões de eleitores (29%) simplesmente se abstiveram, votaram em branco ou anularam seus votos. É como se toda a população do estado de São Paulo não participasse do pleito.

Um terço de apoio obtido por Bolsonaro está longe da consagração que eles sonhavam – algo como 80%, como ele próprio tem revelado – mas, igualmente, está longe de ser um resultado medíocre.

E é disso que devemos tratar.

Procurar entender porque um terço dos eleitores optou por ideias obscurantistas; invasivas; de desprezo à democracia; de relativização da questão ambiental; de absoluto preconceito contra negros, mulheres, índios, pobres, sem falar na homofobia. Ideias que defendem abertamente a supressão de direitos sociais e previdenciários; privatização de nossas riquezas naturais; e desapego à nossa soberania, como o manifesto interesse de transformar o país num mero satélite de reprodução da política dos Estados Unidos, com graves consequências à nossa soberania e aos nossos interesses econômicos.

É simplório imaginar que sua vitória decorreu das tramas internacionais ou é fruto do “antipetismo”. Esses fenômenos são reais, mas tem peso relativo. Talvez o determinante esteja no fato de que uma expressiva parcela da sociedade tem crescentemente questionado as pautas e bandeiras políticas da esquerda como um todo, sugerindo dissintonia entre as nossas pautas e o pensamento médio dessa parcela social. Trata-se, portanto, de um conflito civilizacional.

Analisemos as várias hipóteses da vitória de Bolsonaro.

O serviço de inteligência dos Estados Unidos (CIA) nunca parou de tramar contra qualquer país que não cumpra seu manual. Fez isso nessas e em outras eleições – como evidencia o escândalo dos WhatsApp disparados em massa – mas nem sempre conseguiu determinar o resultado final. O que houve, afinal?

Primeiro eles mantiveram a esquerda sob ataque cerrado durante os últimos 16 anos (2002-2018), com ênfase em Lula, mas não apenas contra ele e o PT. O fato determinante foi exatamente a eliminação de Lula da disputa eleitoral.

Depois, sistematicamente, esse ataque cirúrgico procurou associar a esquerda a práticas de corrupção, retirando das forças progressistas aquilo que sempre foi a sua bandeira distintiva com as forças de direita: o zelo com a coisa pública, combate à corrupção e a outras práticas pouco republicanas o que, convenhamos, passou a ser uma prática recorrente de uma parcela da esquerda sob a ótica de um pragmatismo “onde os fins justificam os meios”. E todos, indistintamente, passaram a ser vítimas dessa cruzada.

O terceiro movimento, coordenado, foi questionar aspectos de natureza moral, que vão do abstrato “valores das famílias” às questões objetivas de natureza ambiental, sexo, liberdade de opinião, gênero, religião, direitos iguais entre homens e mulheres, cotas “raciais” e sociais, etc. O estado laico passou a ser questionado e, tal qual em outras partes do mundo, a pressão pelo ensino do criacionismo em contraposição ao evolucionismo passou a ser bandeira recorrente de parte dos apoiadores de Bolsonaro. Programas de inclusão e mesmo bolsas estudantis passaram a ser questionadas e depreciadas, sem que merecessem qualquer contestação mesmo dos que eram diretamente beneficiados, sinalizando que as chamadas “pautas politicamente corretas” estavam sendo abertamente questionadas.

Estava pronto o “caldo de cultura”. Era necessário, então, escalar alguém como Bolsonaro para verbalizar coisas que, antes de Trump dizer e se transformar em presidente dos EUA, era algo inimaginável por ser politicamente incorreto.

Esse contingente populacional, não necessariamente engajado em qualquer corrente ideológica organizada e estruturada, se opõe, no fundamental, a tudo que indica novas ideias. Eles apoiam, no essencial, a pregação “politicamente incorreta” de Bolsonaro, sugerindo que tinham clareza no que estavam votando.

Guardadas as devidas proporções, esses conflitos civilizacionais sempre ocorreram ao longo da história da humanidade. Ocorreram na passagem do “comunismo primitivo” para o escravagismo e desse para o feudalismo, assim como deste para o capitalismo. E o que dizer do impacto causado pela primeira experiência do chamado socialismo primário, iniciada na Rússia com a revolução bolchevique de 1917?

Como se sabe, na nova sociedade, nem tudo é novo. Ela conserva ideias e costumes da velha sociedade deposta, que se debatem no eterno conflito de que “o novo nega o velho e o velho nega o novo”, fazendo com que convivam, no mesmo espaço e no mesmo tempo, ideias da civilização ao lado de práticas e costumes da barbárie e mesmo da selvageria.

Assim, parte dos eleitores de Bolsonaro se orienta pelo mais odioso “ódio de classe”, é gente ideologicamente de direita; outra parte é de espertalhões que sempre se aproximam de qualquer governo tentando obter vantagens; mas há os que se mobilizam pela simples pauta moral, dos costumes à defesa do estado religioso em contraponto ao estado laico, como determina a nossa constituição.

Uma parcela de seus apoiadores talvez já tenham chegado na civilização, outros ainda estão se debatendo na barbárie e uma parcela expressiva ainda não se livrou da selvageria.

Mas esse dilema não é nosso, não é apenas de nosso tempo. Ele esteve presente em todos os demais tempos. Imaginem o dilema de Galileu Galilei entre sua convicção cientifica de que o sol e não a terra era o centro do universo e a determinação da igreja para que afirmasse o contrário; e Darwin, quantos e quantos dias não temeu pela própria vida diante da revelação que viria a fazer, demonstrando o caráter objetivo da evolução das espécies e como a vida tinha se desenvolvido na terra. São dilemas históricos e nós estamos tendo que conviver com ele, com um ramo da sociedade que, como muito bem sustenta Lewis Henry Morgan, em Ancient Society, em pleno século XXI ainda não conseguiu sair da selvageria.

* O autor é professor da Universidade Federal do Amazonas, doutor em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, coordenador nacional da Questão Amazônica e Indígena do Comitê Central, ex-deputado estadual e atual deputado federal pelo Partido Comunista do Brasil

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1 COMMENT

  1. Barbárie Sr. Eron é a corrupção apoiada pelo seu partido. Vocês perderam as eleições e não adianta ficar com este discurso de quem não aceita a realidade. Aliás, o senhor precisa ainda dar explicações de sua conturbada passagem pela SEPROR. Daniel Melo.

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