Festa da “Palavra Sagrada”

A abertura das comemorações do jubileu de prata do Balé Folclórico do Amazonas, um dos corpos estáveis do Teatro Amazonas, criado como um dos pilares da política pública de cultura e artes desenvolvida de 1997 a 2017, foi oportunidade singular para se observar a dimensão técnica em meio à renovação que este grupo alcançou graças a uma trajetória de brilho e aprendizado enriquecedor. 

Quando decidi instituir esse conjunto artístico ao lado da Amazonas Filarmônica, Corpo de Dança, Coral do Amazonas e Amazonas Jazz, tive o privilégio de contar na direção do balé com Conceição Souza, exímia mestra e experiente profissional, das que agregaram trabalho, atenção aos detalhes, sensibilidade técnica, jeito materno responsável para lidar com os artistas e compreensão do trabalho a realizar. Foi uma bênção ter contado por muitos anos com a dedicação de Conceição e da equipe que ela organizou.

      Agora sob a direção de Monique Andrade, cuja competência, qualidade técnica, capacidade de liderança, direção e preparação artística são festejadas e conhecidas além do Amazonas pela sua trajetória que é exemplar, o Balé Folclórico caminha para novas conquistas, realizações e glórias.

Uma equipe de profissionais idealistas – Magda Carvalho, Simone Picanço, Eduardo Amaral, Vanessa Viana, Rodrigo Colares, Tercio Silva, Roberto Printes, Gabilan e Adson Duarte – deu condições a que um elenco de nível traduzisse em cena uma pesquisa feita com seriedade e minúcias para o palco do Teatro Amazonas.    

Traduzindo os rituais de iniciação, benzimento, cantos xamânicos e as passagens em que a palavra é sagrada porque cria, cura, protege e organiza o mundo, o balé mostrou o cotidiano da maloca, como o povo se comporta e prepara os rituais; encenou a escola dos pajés, a formação e preparação dos novos para a pajelança, o trato com a medicina da floresta e como essa medicina abandonada pelo homem branco tinha e tem importância para os povos tradicionais. Feita a transição – em cenas ordenadas e conceitualmente exemplares, inclusive a purificação da aldeia, deu-se o ritual que os roteiristas chamaram de músico-coreográfico e depois a dança do cariçu.

Em cena, o kumu e sua reza e ensino; o kahapí, bebida sagrada à base de ayahuasca, as histórias e a força dessa bebida para os mundos natural e sobrenatural; o rito de passagem… tudo com base na oralidade, inclusive o conhecimento do plantio, caça, plantas medicinais, grafismos corporais e o calendário ecológico

Uma demonstração de sensibilidade para apreensão dos valores essenciais de cultura das nossas raízes, com profundidade e seriedade de pesquisa gerando elogiável desenvolvimento artístico, inclusive nos adereços de Árina Costa, no visagismo de Roberto Printes e no vídeo de Leandro Andrade, de modo que os movimentos harmônicos e sensíveis ou profundos, leves ou fortes, conforme exigido nos rituais, puderam ser observados pelo público com clareza, a merecer aplausos animadores ao final.

No palco, não mais estavam os bailarinos originais – como natural depois de 25 anos – mas a escola se fez no Liceu Claudio Santoro e no curso de dança da UEA, por certo, e Alessany, Árina, Gabriela, Harrison, Igor, Armando, Ingrid, Italo, Kessy, Leandro, Luana, Luciano, Mackson, Marcela, Mayk, Nayara, Faba, Remilton, Richardson, Jymmy, Taina, Thayra e Vitória incorporaram o trabalho como lição de sabedoria e se entregaram ao desempenho desejado pelos criadores e coreógrafos.

Foi uma noite especial para o público que esteve no Teatro, e revigorante para meu espírito que assisti, aos 25 de existência, a continuidade do trabalho que inaugurei, lembrando muito bem de cada alegria e cada dificuldade que foi experimentada. Aplaudi de pé!

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