Medicina na UTI

O mais recente, dramático e lamentável episódio envolvendo a atividade médica que levou à morte brutal de uma criança na nossa cidade, merece uma reflexão para além dos erros cometidos por uma profissional e uma técnica.

Essa morte, que enlutou um lar, avançou em sucessivos descasos de uma equipe mal preparada e de uma unidade hospitalar com problemas estruturais, com um sistema tecnológico ultrapassado e contando com poucos técnicos e profissionais para um atendimento correto e preciso.

As falhas já detectadas no ciclo que deveria ser virtuoso de checagem, dupla checagem e até tripla checagem tanto na prescrição quanto na liberação e na administração de um fármaco extremamente sensível e perigoso, se converteram na pior das consequências que foi a morte de uma criança.

Chamo ainda atenção, para um fato que as empresas e unidades hospitalares negligenciam por pura e abjeta contenção de despesas.

Falo da falta do profissional farmacêutico este que, de dentro da central de abastecimento interno, exerce um papel fundamental na cadeia de suprimentos mas, sobretudo, na verificação das prescrições antes de chegar ao técnico que vai administrar as drogas aos pacientes.

Essa checagem pelo único profissional abalizado em fármacos e medicamentos, poderia ter alertado, se consultado, para um possível e fatal erro desde a prescrição até à aplicação do medicamento na criança.

Mas não podemos ficar apenas nessas questões técnicas e tecnológicas frias porquanto, há causas mais profundas que levam ao cometimento doloso e até involuntário de equívocos e erros no trato com a vida humana nas unidades de saúde sejam elas públicas ou privadas.

Numa análise fria e calculista penso que existe uma série de eventos que levam ao 

erros médicos e seus desdobramentos muitas vezes fatais:

1. As vocações verdadeiras para a formação em medicina são cada vez mais escassas e, muitos jovens, entram nas faculdades pelo glamour da profissão, pelos ganhos e pela tradição familiar;

2. As milhares de faculdades de medicina são verdadeiras escolas de ganho de capital financeiro e estão nem aí para a boa formação dos seus alunos;

3. Não há hospitais suficientes agregados às faculdades para estágio dos alunos e, quando os há, são um antro de má formação e de falta de boas práticas;

4. Quando formados, os médicos antes de tentarem uma residência, já são contratados para atuar principalmente em unidades privadas e, sem experiência alguma, põem em risco as vidas humanas que chegam em suas mãos;

5. Médicos são treinados para mandar e não para serem orientados ou gerenciados levando à hipertrofia profissional;

6. Maioria dos profissionais da medicina deixam de prestar concurso para atuação nas diversas unidades de urgência, emergência e ambulatorial públicas, fontes de excelência na formação e no preparo para uma vida profissional mais segura e sólida, tendo em vista a enorme casuística a que têm chances de atender e no contato com outros profissionais mais experientes;

7. Por fim mas não o último dos fatores, na ânsia de ganharem muito dinheiro no início da carreira, os profissionais da medicina tiram dezenas de plantões mensais muito além do que a capacidade física e intelectual permite, comprometendo sobremaneira suas atividades junto ao leito dos pacientes.

Mas tudo isso são uma ínfima parte de um problema estrutural mais sério e dramático que levam, levaram e ainda hão de levar outros médicos ao cometimento de erros que redundarão em sequelas e mortes de muitos outros pacientes que só desejavam serem bem acolhidos e atendidos na rede hospitalar disponível.

Faltaram humildade e boas práticas profissionais e sobraram descaso e negligência por parte de quem tinha a obrigação de bem atuar nos seus misteres a fim de bem atender, cuidar e curar as doenças e dores daqueles que os procuraram para minimizar seus sofrimentos.

Abundou ainda a ganância e a total falta de critérios e estruturas condignas nas unidades formadoras privadas que apenas jogam no mercado profissionais sem a menor vocação ou formação adequada para lidarem com a vida humana nos momentos mais cruciais.

Que a polícia investigue e que a justiça julgue os culpados por essa horrorosa sucessão de descasos e erros que levaram à morte do pequeno Benício.

Que este patético episódio sirva de lição para tantos quantos são responsáveis pela formação, pela seleção e pela assistência à saúde humana principalmente aqueles que detém o poder de atender, prescrever e cuidar de quem, estando doente, busca uma unidade de saúde para solução dos seus males físicos.

Té logo!

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