Sustentabilidade e consumo: o tema que insistem em ignorar

Por Robson Roberto*

O planeta está chegando num ponto cada vez mais crítico, observando-se que não pode ser mantida a lógica prevalecente de aumento constante do consumo. Já se verificam os seus impactos no plano ecológico global.

Sabemos que se trata de um tema muito complexo, pois as possibilidades de fixar limites são politicamente problemáticas, em qualquer parte do planeta.

Será que estamos numa encruzilhada? O caminho existente é mais do que problemático em termos ecológicos, quase sem saída pelos métodos convencionais. A exploração crescente dos recursos naturais coloca em risco as condições físicas de vida na Terra, na medida em que a economia capitalista exige um nível e tipo de produção e consumo que são ambientalmente insustentáveis.

O que significa, portanto, promover uma política de consumo sustentável que leve em conta três eixos: a realidade dos limites ecológicos da Terra, de um lado, e de outro que promova justiça social e seja politicamente viável? 

Ao abordar o tema do Consumo Sustentável, como alternativa a uma lógica convencional, se reconhece acima de tudo, os limites do planeta Terra. Entretanto, não se trata de uma questão simples, pois como sabemos a relação entre o mundo rico/industrializado e o mundo em desenvolvimento está permeada de enormes contraditórios, já que uma significativa redução no uso dos recursos naturais pode ter uma conseqüência negativa para os países do Sul. O tema é muito complexo e demanda problematização. A redução drástica do uso de recursos naturais, por exemplo, na montagem de produtos industriais implica em que estes sejam projetados de forma a aumentar sua escala de sustentabilidade.

O que não pode continuar a ser escamoteado é que para vencer os desafios do próximo século e para garantir, mesmo que em escala diferenciada, as necessidades de dez bilhões de pessoas se torna premente avançar rumo a uma política de “Consumo Sustentável” tanto nos países ricos quanto nos países pobres.

A existência de um consumo desigual reflete a atual estrutura injusta quer interna aos países – entre ricos e pobres – quer entre nações, revelando de um lado o sub-consumo estrutural de vastas parcelas da população mundial e, de outro, o “consumismo”, que é um forte adjetivo associado à parcela significativa da população que vive na sua grande maioria nos países do Norte.

Existem dois caminhos que a sociedade tem utilizado como referência para abordar a problemática da transformação de uma lógica que influencie mudanças no consumo – as dimensões da eficiência e do uso final.

Do lado da eficiência, os produtores têm mudado para a utilização de produtos e serviços menos intensivos em energia e recursos naturais – reuso – enquanto que os consumidores, devido a falta de informação e/ou porque ficaram inibidos diante do custo dos investimentos que seriam necessários para aumentar a eficiência, não avançaram tanto nessa direção. Entretanto como a dimensão da eficiência não seria por si mesma suficiente para reduzir drasticamente o uso dos recursos naturais, a abordagem centrada no uso final é fundamental, aquela que enfatiza a provisão das necessidades das pessoas usando a menor quantidade possível de recursos naturais. Estes enfoques diferem substantivamente. Enquanto a ênfase na eficiência significa fazer com que os padrões vigentes de produção e consumo se tornem mais eficientes o enfoque no uso final defende uma modificação nas estruturas de produção e consumo, de tal forma que as necessidades das pessoas possam ser supridas usando um mínimo de recursos.

Os problemas associados com o uso de combustíveis fósseis e suas conseqüências têm provocado também um crescente ativismo e mobilização e debate em nível planetário. Aumenta o número de indicadores que mostra como o uso excessivo de combustíveis fósseis pode causar mudanças climáticas que têm graves conseqüências para a humanidade, assim como a possibilidade de elevação do nível do mar. E a comunidade científica internacional que vislumbra nesta multiplicação de episódios climáticos e nas mudanças nos indicadores tem aumentado os esforços para assegurar que as mudanças climáticas permaneçam dentro de certos limites. Os resultados dos debates mostram a complexidade de acordos que contemplem todos os interesses, e isto tem implicado em forte pressão sobre os grandes emissores. O fato do principal emissor não ter assinado o Protocolo de Kyoto mostra as dificuldades de consensos, embora tenha se tornado claro, a olhos vistos, que todos os países desenvolvidos têm que reduzir seus níveis de emissão de CO2 em 70% ou 80% nas próximas décadas. Portanto, verifica-se que a problemática não se reduz apenas a como se utilizam os recursos naturais, mas principalmente à sua dimensão quantitativa.

Ao concluir, não se pode escamotear o fato que apesar dos estimulantes e importantes avanços por grupos sociais, e governos, em escala local e em alguns casos de países, o Consumo Sustentável continua fora das discussões mundiais e ainda não foi tratado na sua complexidade pela sociedade planetária. O que se argumenta é que o tema deva estar mais presente nos debates sobre Governança Global e que o papel das sociedades é de consolidar instituições que formulem, promovam e disseminem práticas que transcendam a eco-eficiência e ampliem a compreensão dos cidadãos sobre os limites do planeta e suas responsabilidades para com os habitantes do futuro.

*O autor é empresário, consultor, urbanista e contabilista

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