Presidente Figueiredo volta a viver dias de instabilidade política, que remetem aos seus primeiros anos de existência

O município de Presidente Figueiredo foi criado em 1981 já em meio a uma polêmica. Na época, governava o país o general João Baptista de Figueiredo e governava o Amazonas o governador José Lindoso, nomeado pelos militares. Eis porque espalhou-se a versão de que o nome da nova unidade seria uma homenagem ao mandatário. Oficialmente, entretanto, a história registrou que tratava-se de uma referência ao primeiro presidente da província do Amazonas, João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha, que no entanto era conhecido apenas pelos dois últimos sobrenomes.

Seja como for, o município, surgido a partir do desmembramento do território de Novo Airão, viveu ares de faroeste em seus primeiros anos de existência. As disputas políticas não raramente eram decididas na bala. Um prefeito, o jornalista Mario Jorge Monteiro, chegou a ficar paraplégico depois de ser baleado.

Decorridos 37 anos de sua Fundação, Figueiredo, hoje pertencente à Região Metropolitana de Manaus e conhecido como “Terra das Cachoeiras”, por causa de sua geografia privilegiada, voltou a viver ares de faroeste e seus 34 mil habitantes presenciam acusações de ameaças à vida de políticos.

Na segunda-feira, 8, o vice-governador e secretário de Segurança Pública, Bosco Saraiva (SD), determinou que a Polícia Civil inicie investigações para apurar denúncias de ameaças de morte a vereadores locais. Parlamentares da bancada da oposição formalizaram as denúncias junto à Secretaria de Segurança Pública do Amazonas e dizem estar sendo alvos de perseguição e ameaças feitas, supostamente, por pessoas ligadas ao atual prefeito, Romeiro Mendonça (PDT).

As ameaças seriam represálias por conta da revelação de possíveis irregularidades na locação de um imóvel pela prefeitura. Entre março de 2017 e janeiro deste ano, já teriam sido pagos R$ 275 mil sem que, segundo os vereadores, a prefeitura utilizasse o local. À frente das denúncias está o vereador Jonas Castro Ribeiro (PSB), que acusa policiais militares ligados ao prefeito e ao vice-prefeito de intimidar opositores.

“Recebemos denúncias muito graves que atentam contra a segurança pessoal desse grupo de vereadores de Presidente Figueiredo. As providências policiais e de investigação serão tomadas imediatamente”, afirmou Bosco Saraiva.

O vereador Jonas Castro Ribeiro afirma que, além das denúncias que eles fizeram de que a prefeitura de Presidente Figueiredo alugou e fez benfeitoria em um imóvel particular, sem utilizá-lo, as ameaças teriam ganhado força com a cassação do prefeito e vice-prefeito em novembro do ano passado. O grupo de parlamentares que estaria sofrendo represálias é formado, ainda, por Anderson Leal (MDB), Patrícia Lopes (MDB), Assis Arruda (PSDB) e Inês Sampaio (PSB).

O deputado estadual Vicente Lopes (MDB), opositor do prefeito e aliado preferencial do governador Amazonino Mendes, acompanhou o grupo na reunião com Bosco Saraiva (foto acima).

“Nós, por sermos oposição, estamos sendo tolhidos. A gente formula algumas denúncias e tem algumas situações que não poderia deixar de formular, com relação ao aluguel de um prédio. E o irmão do proprietário foi a Câmara para dizer que queria colocar os ‘pingos nos is’, comigo. A gente teme que esse tipo de conduta leve a coisas piores”, disse o vereador.

OUTRO LADO

O prefeito de Presidente Figueiredo, Romeiro Mendonça, e o vice-prefeito, Mário Abrahão,  divulgaram nota ontem dizendo que não compactuam e repudiam veementemente esse tipo de conduta.

“Todos os contratos da prefeitura estão à disposição da população e dos órgãos de fiscalização, o que, portanto, não gera motivos para discórdias ou comportamento contrário à lei, o que é inteiramente reprovado pela atual gestão em qualquer circunstância”, diz a nota.

Os dois se dizem à disposição da Polícia para colaborar no que for necessário, “até que os responsáveis do possível delito sejam responsabilizados”.

“É de interesse da administração municipal que os fatos sejam devidamente esclarecidos não apenas para que se faça justiça, mas também para garantir que a verdade prevaleça diante de eventuais intrigas, das quais a atual gestão tem sido vítima constante por parte de opositores, que por diversas vezes desonram o compromisso com o interesse público e a democracia, apenas para denegrir a imagem dos atuais dirigentes municipais”, acrescentam.

“Se existe violência por parte de algum grupo político em Presidente Figueiredo – o que é de total conhecimento da população – não se trata da nova administração.  Ao contrário do vereador Jonas Castro, responsável pela denúncia e ‘líder’ do grupo de opositores, que não pode gozar do mesmo privilégio devido possuir extenso histórico criminal no município”, atacam prefeito e vice, referindo-se a alguns episódios que envolveram o parlamentar de oposição, inclusive a morte por atropelamento de uma cidadã local, crime no qual Castro é réu confesso.

Romeiro se mantém no cargo sob ameaça da cassação decretada em dezembro pela Comarca Local, por conta de um processo referente à sua prestação de contas da eleição de 2012, quando perdeu a Prefeitura para Neilson Cavalcante (PSB), que derrotou em 2016.

RELAÇÕES POLÍTICAS

A política em Presidente Figueiredo enseja algumas curiosidades. Mendonça é correligionário do governador Amazonino Mendes, mas apoiou o opositor deste na eleição suplementar do ano passado – o senador Eduardo Braga (MDB). Já Lopes é correligionário de Braga, mas apoiou Mendes na mesma eleição.

Saraiva agiu movido pela questão política. Ele quer o apoio de Lopes para manter-se vice na chapa de reeleição de Mendes, ou para disputar algum outro cargo, como o de senador ou de deputado federal.

A população, por enquanto, assiste ao chumbo trocado em silêncio, lembrando o passado e torcendo para que ele não se repita no presente e no futuro.

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