Cracolândia e outras tragédias sociais

Por Ronaldo Amazonas*

Com esse, completo noventa artigos escritos e publicados neste espaço generosamente disponibilizado pelo meu mano Hiel Levy. Confesso que gostaria de escrever algo doce e palatável para o gosto apurado dos meus insistentes leitores porém, há um tema que teima em pulular na minha mente e que com toda certeza salta aos olhos de todo ser humano que guarda um pouco de sensibilidade e racionalidade quando o assunto são as drogas e suas deletérias consequências para os usuários. Estou falando daquele horrível, fétido e asqueroso espaço que em algumas capitais brasileiras se convencionou chamar de cracolândia. Até o termo tem um duvidoso duplo sentido pois guarda relação entre algo horrível e que deve ser combatido com outro relacionado com alegria e diversão. Enfim, vá entender a cabeça de quem inventou isso!

Voltemos então ao centro do nosso artigo. Meu Deus! Como é que essa gente alcança o fundo do poço na mais absurda e miserável condição humana? Como que autoridades, povo e poderes permitem que aquilo perdure por anos sem a menor atenção, relegando aqueles seres humanos ao mais terrível nível  da degradação social e de saúde física e mental? Como pode a cidade mais rica do país permitir que essa situação se mantenha sem as intervenções sociais, de saúde, de moradia, jurídicas e de humanização necessárias deixando-se vencer e abater pelo domínio dos traficantes?

Vejo igrejas, entidades sociais, MP, OAB, secretarias municipais e estaduais, poderes executivos e legislativos inermes e inertes diante desse quadro ora, discutindo culpas e culpados ora, desviando-se das responsabilidades e o problema se agravando e se avolumando que de tal sorte, aquele pedaço da rica cidade de São Paulo tornou-se um lugar triste, falido, carregado e infértil do ponto de vista urbanístico, de habitabilidade e comercial. Quando muito, tais organismos atuam de forma isolada e atabalhoada permitindo com isso pífios resultados na busca da solução definitiva para o problema.

Já está mais que na hora para que as autoridades unam-se em torno do tema e, deixando as vaidades e caprichos de lado, entreguem a problemática nas mãos de estudiosos das diversas áreas envolvidas com o assunto de modo a permitir que uma ação planejada e coordenada seja aplicada e as avaliações sejam feitas até para servirem de modelo para outras localidades que enfrentam o mesmo drama.

O que não dá é ouvirmos dia após dia que não se tem os recursos humanos e financeiros necessários ou que ainda não se chegou a um consenso sobre a melhor forma de intervenção que não seja a polícia e suas formas de combate, para um mal que é social e de saúde física e mental daquelas pobres criaturas.

Aquelas pessoas são cidadãos e cidadãs com todos os direitos dos demais e que portanto merecem do poder público a atenção necessária para reaverem suas dignidades por enquanto jogadas na sarjeta do vício ou nas mãos de inescrupulosos traficantes.

Té logo!

*O autor é empresário e farmacêutico

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